Por favor, não fiques triste.
O amor é um regresso a um lugar
que já não é o meu
um copo a mais na minha bezana

uma posição de mal sentado
uma rotação incómoda na cadeira
que o corpo já não acompanha
uma entorse.

(…)

O meu sono será uma longa
viagem sem sobressalto
numa cabine de comboio fechada
e só por minha conta

rumo a um lugar onde não posso
tirar fotografias.

Rogério Rôla

8 anos sem ti, que inferno é este que me deixaste?

I’ll open the window

Our embrace lasted too long.
We loved right down to the bone.
I hear the bones grind, I see
our two skeletons.

Now I am waiting
till you leave, till
the clatter of your shoes
is heard no more. Now, silence.

Tonight I am going to sleep alone
on the bedclothes of purity.
Aloneness
is the first hygienic measure.
Aloneness
will enlarge the walls of the room,
I will open the window
and the large, frosty air will enter,
healthy as tragedy.
Human thoughts will enter
and human concerns,
misfortune of others, saintliness of others.
They will converse softly and sternly.

Do not come anymore.
I am an animal
very rarely.

Anna Swir

O dia vai nascer nublado.
Vai estar bastante frio
Mas à medida que o dia avançar
O sol abrirá
E a tarde será seca e quente.

À noite a lua brilhará
E será bastante luminosa.
Haverá, é verdade,
Um vento cortante
Mas que abrandará pela meia-noite.
Nada mais acontecerá.

Esta é a última previsão.

harold pinter | guerra

O casaco jaz na mesa de jantar
O casaco é de malha e estamos no verão
O casaco tentou aquecer três mulheres de granito
O casaco desistiu, manquejou, perdeu a memória, desligou-se
O casaco nadou nas lágrimas escuras do roupeiro
O casaco fugiu para a tepidez lisboeta
O casaco saltou casas incansáveis
O casaco embalou uma mulher
O casaco perdeu quase tudo
O casaco permanecia
O casaco embrulhou-se em vidro
O casaco foi conhecer céus algarvios
O casaco jaz na mesa de jantar
O casaco era da mãe
A mãe estará sempre no casaco.

Rosa Oliveira | Tardio

Fico assim, perdido no fundo de mim mesmo, sem nome, sem olhar para o que me rodeia, sem corpo que me transporte, sem pensamentos.
Quanto à memória, é terrível. Umas vezes vai buscar imagens distantes de acontecimentos que, em geral, ainda virão a suceder. Outras, pura e simplesmente não há memória de nada. Um pouco como se eu começasse a ser a cada fracção de segundo, e levo um tempo infinito, desumano, para erguer de novo, peça a peça, o que sou.
A embriaguez é um momento de vida incendiada, ou suspensa, e a ressaca um tempo de lenta e demorada reconciliação com o mundo, e comigo mesmo.

al berto

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

Adolfo Casais Monteiro | ‘O Estrangeiro Definitivo’

sete anos sem ti. dois mil quinhentos e cinquenta e cinco dias sem ti.