é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes.

al berto | rumor dos fogos

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto

O mar já não era para mim suficiente.
Fazia-me falta um rio
um rio sob sombra das árvores.

É difícil a meio da música
suportar a luz do café.

João Miguel Fernandes Jorge

no help for that

There is a place in the heart that
will never be filled

a space

and even during the
best moments
and
the greatest times
times

we will know it

we will know it
more than
ever

there is a place in the heart that
will never be filled
and

we will wait
and
wait

in that space.

Charles Bukowski | you get so alone at times that it just makes sense

O limite

Uma folha amarrotada
de papel pardo
com o tamanho

e aparente constituição
de um homem
ia a rodar lentamente

com o vento
uma e outra vez pela
rua quando

um carro passou-lhe
por cima
e esmagou-a contra

o chão. Ao contrário
do homem ela levantou-se
e continuou a rodar

com o vento uma
e outra vez como tinha
feito até aí.

William Carlos Williams | The Collected Early Poems, trad. Manuel A. Domingos

Em certo serão de inverno, Sofia, Ana quebrou-te, creio que por descuido, um braço a uma boneca. Tu foste para o quarto, grave, sem uma lágrima. E de um a um quebraste todos os teus brinquedos, impedindo violentamente que te levassem os cacos: melhor que a náusea das compensações medianas, preferias o absoluto da destruição.

Vergílio Ferreira | Aparição

Tristeza vai-te embora
Tristeza
pequena morte.
Chega a noite, vai-se o dia
e assim há-de desaparecer este pobre diabo
que eu sou
com calças rotas
camisola cosida.
Esperavas um milagre nesta noite de Natal?
A camisola não recebeste
as calças não tas deram.
Bem feito
Para não acreditares em anjos.

Mário, 8 anos | A Criança e a Vida, 1960

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.

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