esqueci-me como se ama furiosamente. não venhas ter comigo. sobretudo hoje que tanto tenho pensado em ti. não venhas. só na ausência ainda consigo desejar-te. se aqui vieres será um dia terrível para mim. terei de fingir, de enganar-me. quando estás não te amo, ou amo-te tão intensamente que às vezes me parece que isto já não é amor.

al berto

the flesh covers the bone
and they put a mind
in there and
sometimes a soul,
and the women break
vases against the walls
and the men drink too
much
and nobody finds the
one
but keep
looking
crawling in and out
of beds.
flesh covers
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh.

there’s no chance
at all:
we are all trapped
by a singular
fate.

nobody ever finds
the one.

the city dumps fill
the junkyards fill
the madhouses fill
the hospitals fill
the graveyards fill

nothing else
fills.

Bukowski

segreda-me a canção dos dias
sem que nos ouça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não pára de nascer.

segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte.

vasco gato

11 janeiro 1948 – 13 junho 1997

Ah! Como tenho sede doutras vidas, como desejaria o silêncio magnífico das profundidades do mar. Um dia deixarei de escrever, de ler, de dormir, de comer, de me apaixonar, deixarei pura e simplesmente de viver, no entanto estarei irremediavelmente vivo. Irremediavelmente acordado para as catástrofes do fim do século. Estarei acordado dentro do meu corpo envelhecido, atento às doenças da alma. Visões, alucinações palpáveis, miragens, orlas de oceanos e desertos. Lugares onde o viço da vida desponta devagar, esparso ainda. Aqui sobrevivi, na orla da vida. Como poderei adivinhar o futuro, ou ter esperança, se a vida na orla do deserto se reduz a pequenos nichos, escassa chuva, raros rostos, memórias que se apagam de hora a hora e que eu não registo nem guardo, porque tenho relutância em lembrar-me seja do que for. Só quero ter na memória o que está por acontecer. Que forma terão os meus pensamentos depois da minha morte? Conseguirei continuar a escrever? De que maneira?

Al Berto | Diários

I did my best, it wasn’t much
I couldn’t feel, so I tried to touch
I’ve told the truth, I didn’t come to fool you
And even though it all went wrong
I’ll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah.

Leonard Cohen

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
Eu fiquei sentado na soleira da porta à espera
da cura. Brincava ocasionalmente com o fogo,
porque era a tua voz que me trazia o outono,
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica
da extinção das espécies.

Eu fiquei incendiado
em compartimentos sem atributos térmicos,
manuseando de um modo temerário coisas
como dogmas ou outros objectos teosóficos.

Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
a soletrar silenciosamente o teu regresso.

José Rui Teixeira