fragmentos do diário XXIII – breves de 2014

doente. dores no corpo, febre.
soube que se vai embora. a ideia de nunca mais a ver faz-me estremecer. mas melhor assim. a paz só existe onde ela não está. 17 Janeiro

como pode ir sem me dizer nada? como pode ir sem ser comigo? não. onde quer que vá, ainda vai comigo. onde quer que vá, ainda vai por mim. 18 Janeiro

que esta viagem seja o teu velório onde me despeço para nunca mais. afinal, a única forma de te amar sempre foi nas despedidas. 19 Janeiro

e sempre que penso que estou livre de ti, não estou ainda livre de ti. 20 Janeiro

a raiva volta a preencher tudo, tira-me o ar. a raiva para onde quer que olhe, a raiva que só se pode sentir quando se amou no limite da loucura. 4 Fevereiro

escreveu-me ontem.
tinha pensado muito nesse momento em que receberia uma mensagem. teria forças para não responder? não tive. respondi em segundos.
é enlouquecedor o discurso dela. faz-me duvidar da minha sanidade. 5 Fevereiro

volta a escrever-me. lutar contra a vontade.
estes momentos febris, delirantes, de um amor que atravessa tudo, no limite da loucura, um amor que me ultrapassa e que é subitamente a maior verdade da minha vida.
depois há o racionalizar tudo isto. pensar na violência, no vício da espiral, questionar o amor porque o amor não é suposto ser isto e fazer tão mal.
depois o amor é suposto ser exactamente isto. porque se não doí não é amor, porque se não é no limite não é amor.
e, que estou eu a dizer? seria um inferno toda a vida nisto.
e toda a vida sem ela que inferno será? 18 Fevereiro

e depois há o dia seguinte. acreditar que não há amor nenhum, que o que existe é este estar só, em que a ideia de vê-la é-me indiferente e anseio conhecer pessoas novas. 19 Fevereiro

toda eu sou um domingo que se arrasta.
vejo-a a chegar, corro para ela. como uma cena de um filme repito-a vezes sem conta na minha cabeça. 9 Março

e assim se passam seis meses sem ela. 1 Abril

ouvir a sirene da ambulância. saber que vêm por mim. sentir que a vida pode acabar naquele instante. não sentir medo, sentir espanto. 12 Abril

não se podia falar daquele amor sem falar da morte. 4 Maio

vivo o dia a dia à superfície desta dor. não aguentaria aceitar a devastação da vida sem ela. faço por não pensar e deixo que as horas passem. depois, há momentos como este. acordo, abro os olhos, e não há fuga possível à dor. ela atravessa tudo, está em todo o lado e demoro muito tempo a regressar. 6 Maio

e vi o amor espelhado nos seus olhos.
olhámo-nos apenas, não falámos. os olhos encheram-se de lágrimas. 8 Maio

esta necessidade de ter alguém molda-nos os dias, tira-nos o prazer das coisas. é preciso libertarmo-nos dos outros, desta ideia que para estarmos felizes precisamos de uma relação amorosa.
devia voltar à escrita e à leitura. aproveitar a tristeza, diria A.
as saudades dele. as saudades dele. repeti-lo enche-me de raiva. o nunca mais da tua morte que é um para sempre da minha dor.
e a dor atravessa-se no pescoço e faz-nos respirar mal. 19 Maio

chove. irá chover toda a semana.
o tempo escuro enfia-se sempre na pele. esta merda desta tristeza que não me larga. 20 Maio

os dias vazios. lentíssimos. e esta chuva que não pára.
estou de costas viradas para a vida. ou é a vida que está de costas voltadas para mim? 21 Maio

sete meses sem ninguém. aparece alguém e percebo a dimensão do horror que ela me fez. o pânico que me causa a intimidade. a certeza que me vão magoar. a tristeza que me causa saber-me tão frágil, que perante a ternura estou sem defesas, que todos os toques me enchem de medo, como a um animal há muito abandonado. 7 Julho

a minha fragilidade é tão grande que acordo com vómitos, o corpo pesadíssimo, os olhos não abrem.
em que me transformei depois deste amor? como foi possível quebrarem-me desta maneira? nada, nada ficou intacto. i’m a wasteland now. 14 Julho

e assim chega a notícia do teu regresso.
não posso continuar a dar-me a este amor.
este amor, este amor. 11 Agosto

sexo com pessoas por quem não me sinto atraída, sexo gratuito, não pensar, esvaziar-me, deixar que me fodam durante horas até à exaustão do corpo. 13 Agosto

dois anos sem ti, rogério. a não importância das datas quando a dor ainda é diária. a importância da passagem do tempo. o pó na fotografia. 28 Agosto

o telefonema dela de manhã. quer ver-me. digo-lhe que não. desligo e quase que faltam as forças nas pernas. 4 Setembro

este amor como um mar negro em que a tempestade levanta ondas tão grandes que me cobrem e não tenho fuga. mar mar mar, luminoso afogado.
este amor como só este amor pode ser. negro negro, bright, negro. esta saudade. isto, isto, isto. 18 Outubro

deixará Penélope de tecer a sua teia? 1 Novembro

dir-se-ia que este ano foi um longo inverno. 5 Novembro

ela chega a Lisboa dentro de algumas horas. 15 Dezembro

em uma hora estará aqui. estou tão nervosa que sinto arrepios pelo corpo, os maxilares tremem, os olhos estão tão pesados.
um ano, dois meses e dezanove dias depois.
quatrocentos e quarenta e cinco dias depois.
sinto que vou abrir a porta e perder os sentidos. falhar-me-ão as forças. 17 Dezembro

não consigo escrever. em nenhuma palavra cabe este amor. 31 Dezembro

To your final question, however, whether it is possible for me to take you as though nothing had happened, I can only say that it is not possible. But what is possible, and in fact necessary, is for me to take you with all that has happened, and to hold on to you to the point of delirium.

Kafka | letters to Felice

225 days under grass

and you know more than I.
they have long taken your blood,
you are a dry stick in a basket.
is this how it works?
in this room
the hours of love
still make shadows.

when you left
you took almost
everything.
I kneel in the nights
before tigers
that will not let me be.

what you were
will not happen again.
the tigers have found me
and I do not care.

Charles Bukowski

pouco me interessa a metáfora. vazia, cheia de pretensiosismo. detesto certezas absolutas. gosto muito mais do que é simples, sem versos complicados, sem palavras que requeiram o dicionário. gosto da nudez. a nudez das palavras, a nudez de um corpo que subitamente se encontra sem palavras, a nudez exposta, a nudez nua, nua, nua. não gosto de artifícios, de palavras que escondem palavras. gosto da exposição total, da palavra que me diz, de uma linguagem própria, despida, da uma nudez crua, como uma dádiva.

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

sophia de mello breyner andresen | obra poética I