I kissed his shadow. I kissed his shadow and this kiss did not touch him, this kiss was lost in the air and melted with the shadow.

Our love of each other is like one long shadow kissing, without hope of reality.

Anaïs Nin | House of Incest

Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Não porque não te amasse, ou porque não me quisesses tu. Simplesmente tinha de acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu gosto-te, tu gostas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.

Manuel Jorge Marmelo | O Amor é para os parvos

fragmentos do diário XXVI – breves de 2017

“o novo ano começa com o presságio de um amor”. esta era a frase a escrever, há dias atrás. não a escrevi porque a certeza da dor é tão absoluta e aterroriza-me de tal forma que mais vale não deixar mais um registo de uma desilusão escrito. 6 Janeiro

Sinto-me pequena e frágil perante as suas demonstrações de ternura. 9 Janeiro

O que me espera nas próximas horas? Que início de amor? Que amor?
A felicidade que sinto só é equiparada ao medo que sinto.
Preciso de quebrar o ciclo. Preciso de um amor passível de ser vivido. 11 Janeiro

Ocupo o lugar 14D do avião e reparo que não existe lugar 13. Portanto, à prova de azares. 11 Janeiro

Um mergulho em maré alta, chegar ao fundo, abrir os olhos e as águas serem transparentes, como os dias mais claros. 12 Janeiro

Pesadelos todas as noites. Acordo com imagens terríveis que me acompanham nos dias que se seguem. 23 Janeiro

O peso dos anos sobre o corpo. Tudo me dói e me esmaga e desejo voltar a dormir num profundo sono despovoado de imagens. 3 Fevereiro

Sonho com os olhos verdes dela – uma tempestade. 17 Fevereiro

E hoje é domingo. Destes domingos que chegam aos ossos. 19 Março

Passaram quase 30 anos. Somos adultos agora. Muito mais adultos do que julgávamos ser possível quando brincávamos às escondidas pela casa dela.
E talvez só eu guarde estas memórias. Como uma dádiva ou maldição. Certamente estarão todos felizes por se encontrarem enquanto que eu trago todos estes fantasmas, permito que se sentem à mesa connosco. 24 Março

Silêncio. Sempre tanto silêncio. 25 Março

Pego no telemóvel para começar a escrever e percebo as saudades que tenho de um papel e uma caneta. 2 Maio

Farias anos hoje. Dir-me-ias, “estou acabado”. Eu chamar-te-ia de parvo, dir-te-ia que ainda bem que cá estás, que estás perto de mim, que irias morrer muito tarde, de velhice. Tu inclinarias a cabeça, olhando para mim e sorrindo, sabendo que eu te percebo mas feliz pela minha crença quase infantil na tua imortalidade. 2 Maio

Caminhar pela cidade, respirar a cidade. É ainda isto que me devolve.
Depois de uma hora nestas ruas, a arritmia acalmou. 22 Maio

Tem acontecido isto, relações em que as pessoas não se dão mas dizem amar-me como nunca amaram. De que serve o amor pelo amor? Diria mesmo, o amor desprovido de amor. 1 Junho

Que bem me serviria uma vida sem trabalho!
 Poder passar as tardes num café a ler, a escrever. 2 Junho

Não me tinha apercebido quão triste estava até reparar que o sol há muito já se tinha posto e que estava sentada na sala às escuras. 19 Junho

Ela diz-me que comprou a passagem. que chega dia 18. E eu sinto que me deram um nó por dentro, que deixei de conseguir respirar fundo. É como aquelas velas de aniversário que depois de soprarmos se voltam a acender. Como um vírus que surge cada vez que o sistema imunitário está comprometido e nos ataca por dentro. 25 Junho

Tão farta de pessoas. Afastam-se quando me aproximo, aproximam-se quando me afasto. Alguém sabe o que quer? 28 Junho

Ceder ao que sinto por ela. Seria um vendaval. 1 Julho

Aniversário. Há mais mortos que vivos ao redor desta mesa. Que dia horrível, horrível, horrível. Porque raio se festeja um dia destes? 3 Julho

Leio a poesia de Bukowski – Love is a Dog from Hell – e é esta poesia que melhor me serve. Não há palavras caras, romantismos desnecessários, há sexo e solidão, e solidão depois sexo e uma espera de que ninguém fala. 6 Julho

É estranho como nada me completa e ao mesmo tempo a companhia faz-me sentir ainda mais incompleta. 9 Julho

Momento há em que não quero apaixonar-me por ninguém, não quero sair desta zona de conforto que a solidão se tornou. 9 Julho

Vou buscar os diários de al berto. Abro sempre numa página ao calhas e de todas as vezes tenho de suster a respiração. Forma-se um nó na garganta que dói. 11 Julho

Domingos intermináveis. A solidão é cada vez maior. Ninguém aparece e o telefone não toca.
Em três meses fará um ano que não vejo a mãe. A voz dela começa a desaparecer, como sempre desaparecem as vozes dos mortos.
Continuar viva é isto, suportar a dor, estar no absoluto limite da tristeza. 16 Julho

Com ela relembro-me como pode ser perfeita uma relação. Passeamos e conversamos e rimos e eu sinto-me mais inteira. 20 Julho

Que me deem tudo, ou que fiquem longe de mim. 21 Julho

Quando me sento nas esplanadas da avenida e o fado se começa a ouvir, tudo volta a estar bem. Sou de lisboa.
Se ao menos conseguisse passar para a escrita esta luz, como o vento faz estremecer as árvores e provoca as sombras interrompidas pelo sol. 29 Julho

Um desejo que me deixa doente – de algo tão simples como tocá-la na mão. 2 Agosto

Ela empurra-me para a escrita, para os livros, para o cinema. Coloca-me no centro de mim, faz-me sentir coisas como se fosse a primeira vez. e eu caio, sem rede, pelo olhar dela adentro. 2 Agosto

Mas há sempre o dia seguinte. 3 Agosto

E agosto hoje voltou a ser agosto. este mês lentíssimo, em que as ruas cheiram a morte e nenhuma voz virá salvar-me.
Se ao menos Lisboa esvaziasse de repente e eu pudesse nela caminhar. Sem nenhuma voz, sem nenhum rosto.
Que me seja devolvida esta cidade. 10 Agosto

A única forma de atingir a felicidade é o amor. Tudo o resto que queiramos inventar para lá chegar são actos desesperados de dar sentido à vida. 13 Agosto

Espero o metro na estação da avenida. Olho para as pessoas em volta e penso que um dia deixarei de cá estar, todas estas pessoas deixarão de cá estar. Estes carris sobreviver-nos-ão. 14 Agosto

Sozinha na praia. Faz-me bem este tempo de solidão, já que a solidão é tão profunda ao menos que as vozes se calem também. 18 Agosto

Costumava adorar regressar a Lisboa depois das férias, a beleza desta cidade era ainda mais evidente depois de uma ausência. Agora, olho para a avenida, para as sombras das árvores das quais ainda há uns dias falava e é como se a beleza não entrasse em mim. Estou fechada do lado de fora da beleza. 24 Agosto

Fico a imaginar que ela vai regressar de viagem e tudo voltará a ser como era. Mas ela regressará à cidade, não a mim. 25 Agosto

Acordavas hoje pela última vez. Haverá algum presságio do fim? Terás tu sentido que era a última manhã? Tudo tão breve, a vida passa a correr. De repente temos quarenta anos, de repente deixamos de cá estar. Que sentido faz tudo isto? Que sentido faz procurar um sentido? 28 Agosto

Ela é o início e o fim do meu desejo. 31 Agosto

Não salvei ninguém. Toda a vida a tentar. Nada, ninguém. Não salvei ninguém.
O vazio que resta é dantesco. Como se o corpo estivesse esburacado por tiros. 7 Setembro

Há muito tempo que tenho noção disto em mim, deste pavor à ternura, deste medo do amor desprovido de violência, do amor simples, sem fugas. E entristece-me e pergunto-me se voltarei a amar tranquilamente. 21 Setembro

Talvez o tempo do desejo tenha acabado. Talvez o corpo se tenha gasto por excesso de uso. 27 Setembro

sábados que expõem a solidão
sábados em que o sol fica fechado fora de casa
sábados que são domingos
estes dias intermináveis. 7 Outubro

Há uma sensação de orfandade neste vazio. Perdi o que me ligava à terra, as raízes desapareceram. 16 Outubro

Trabalho até de madrugada, trabalho aos fins-de-semana, aos feriados. Não deixo que a solidão me apanhe. Escrevo pouco para não criar espaços onde o pensamento me leve para lugares escuros. Porque, a bem ver, tirando o trabalho toda a vida é um espaço escuro. 12 Novembro

Esta solidão leva-me à loucura. 23 Novembro

Seria melhor nada escrever durante este interminável dezembro. 19 Dezembro

Medo de escrever sobre a noite com ela. Medo que tudo desapareça no momento em que escrever. 23 Dezembro

E assim chega a noite de natal, este natal feito de ausências.
Temo que se começasse a chorar não houvesse como parar. 24 Dezembro

fragmentos do diário XXV – breves de 2016

Há muito que não escrevo. Chegou finalmente uma paz que há muitos anos não sentia 26 Abril

Álcool ao ponto de me esquecer quem sou. 17 de Maio

A vida corre com os olhos postos no futuro. É a primeira vez que se passa isto – ser carregada pela esperança do que virá ao invés da dor do que passou. 23 Junho

Tanta coisa se passará nos próximos meses que rebento de ansiedade. 7 de Julho

Momentos há em que desistir é a única vontade. 21 de Julho

O som do mar é imenso. Não o consigo ver desta varanda, mas adivinha-se o seu movimento pelo barulho que chega. Ouvem-se grilos e milhares de pequenos sons de outros animais dos quais desconheço os nomes. 6 de Agosto

E depois há a solidão dentro da solidão.
Como as bonecas russas, no fundo da solidão nasce outra, mais profunda.  11 de Agosto

É a manhã do dia seguinte que custa. Abrir os olhos e a sensação de felicidade do dia anterior ter desaparecido. Subitamente voltámos a estar sós. 23 de Agosto

Esta urgência em que o amor aconteça. 24 de Agosto

Como foi possível teres-me deixado aqui?
Nunca mais é demasiado tempo. É humanamente incompreensível que nunca mais possa vir a conversar contigo. 25 de Agosto

Leio o teu diário. As tuas palavras trazem imagens, relâmpagos de segundo em que volto a estar sentada na tua cama, tu ao meu lado. Oiço a tua voz. É um brevíssimo momento em que sustenho a respiração como que para a reter. Ao voltar a inspirar a voz desaparece e estou novamente no escritório, a ler as tuas palavras num computador, numa solidão tão profunda que assemelha-se a um transe – uma leveza de cinzas. 26 de Agosto

Chegar ao centro de Tirana e sentir as pernas falharem-me. Chorar. Estou aqui. Estou aqui. E sinto-me  em casa. 4 de Setembro

Percorrer as ruas de Tirana a caminho da minha antiga casa. Reconhecer aqui e ali pequenas coisas.
Chegar ao fim da rua, abrir o portão. Suster a respiração. Ali estava. A minha casa. Como uma ruína. O meu jardim, a mesma árvore frente à janela. A casa está abandonada como se ninguém depois de mim ali tivesse estado. Abro a porta. Estou dentro de casa. Igual, as escadas para o meu quarto. O meu quarto.
Poderia toda a vida procurar palavras para explicar a sensação e não conseguiria. Transbordo-me. Nunca me encontrei tão sem palavras. Sair de mim e encontrar-me no centro de mim. Regressar. 4 de Setembro

Quero ficar. Esquecer-me de Lisboa por uns tempos.  5 de Setembro

Acreditava que esta viagem me traria paz.
Regresso a lisboa com esta sensação de já não pertencer aqui.
Dói este sentimento de não pertencer a lisboa. Dói-me outra vez acordar nesta cidade. 20 de Setembro

Reapreender a andar na cidade, permitir que Lisboa me guarde. 22 de Setembro

Noite após noite acordar com medo, não reconhecer a minha casa. 27 de Setembro

Regresso às margens da água, depois de um mergulho tão fundo, tão escuro. 6 de Outubro

Quantos lutos somos capazes de suportar numa vida? Quantas vezes morremos ao longo dos anos? 21 de Dezembro

Haverá dia mais triste que o dia de Natal? 25 de Dezembro

fragmentos do diário XXIV – breves de 2015

Não me dou porque não tenho o desejo de me dar? Ou não me dou porque dar-me seria permitir que ela me destruísse? 8 Janeiro

As defesas que construí são muros tão altos que não sei já onde me encontro. 10 Janeiro

Quando tudo em mim está calmo, não escrevo. Mas não escrever é como respirar mal. Se não escrevo, sinto que vivo à superfície das coisas. Quando a dor é intensa, escrevo ininterruptamente. estou no centro de mim. Daqui se depreende que preciso da dor para me sentir inteira. haverá alguma vez equilíbrio em mim? 13 Fevereiro

É difícil acreditar que em algum ponto do mundo hoje faça sol. Em lisboa chove, chove, chove. 17 Março

A vida está longe de ser o que sonhámos.
Que liberdade deliciosa a que temos quando somos adolescentes de imaginar que a vida pode ser perfeita. Os sonhos afiguram-se a momentos isolados no tempo, sem passado. Nos sonhos, não se contemplam os desastres. 2 Abril

A vida não é só o que fazemos dela. Porque precisamos dos outros para existir somos mais vulneráveis. 2 Abril

Depois de uma semana de um verão fora de tempo, voltou o inverno. Quando abri os olhos pensei que ainda não tinha amanhecido. Saí à rua e tudo estava muito quieto, deserto, só o barulho da chuva. 6 Abril

Vi duas comédias românticas seguidas e chorei repetidamente. Detesto comédias românticas. E detesto ainda mais chorar a ver comédias românticas. 20 Abril

Durmo mal, a noite inteira como uma alucinação, mexo-me sem parar. Não chego a acordar, é um estado de uma consciência alterada, sinto que cordas me prendem à cama. 28 Abril

Fui ter com ela já passava das duas da manhã. bastou-me olhar para ela para que tudo em mim se esvaziasse e se enchesse de amor. Apaixono-me por ela sempre que a vejo. 
Andámos por lisboa com álcool e drogas. Não conseguia sentir-me senão feliz. 3 Junho

Ela deixa-me numa total embriaguez dos sentidos. Os fragmentos de segundos em que me sentia finalmente em casa, o tempo não tinha passado, nada de mal tinha acontecido e o futuro seria com ela ao meu lado. Os fragmentos de segundos de dor insuportável, o desespero por ela não poder ficar, o desespero por ela não ficar nunca porque o amor não chega. 15 Junho

Cama sem desejo, cama por cama, cama “porque não?”. 24 Junho

É como se o verão tivesse acabado de repente. O meu corpo acompanha o movimento das estações e as sombras da cidade instalam-se em mim.
Fiquei subitamente muito triste, tão vazia como estavam as ruas durante a tarde. Sobre o tejo caía um nevoeiro tão denso que dir-se-ia que o rio não existia. 13 de Setembro

E as ressacas são cada vez mais penosas. Em tempos curaria a ressaca bebendo mais, fodendo com estranhos, dormindo o tempo todo que restava entre uma embriaguez e a outra.
Nada disso é suficiente agora. Tenho medo da idade a passar. Tenho medo de ficar sozinha 14 Setembro

Há tanto para escrever. Mas existem estes dias, em que toda a escrita é uma repetição. Como viver é por vezes uma peça que se repete no mesmo palco. 8 Outubro

Ela vai tocar à campainha a qualquer momento e eu sinto-me como uma adolescente que espera o namorado para a primeira saída a dois. 2 Novembro

Não amo. Não amo. Não amo. 7 Novembro

Não tenho escrito por não saber o que escrever. O que resta quando acaba o amor? Que palavras? 24 Novembro

Sentei-me na mesa da sala a comer qualquer coisa e ela dançava à minha frente, tentando que eu reagisse. Senti-me no filme Bitter Moon, do Polanski. Ali estava a mulher mais bonita do mundo, a dançar apenas para mim e a beleza dela já nada me provocava. Eu continuava a comer com indiferença e ela nem sequer percebia, continuava a insinuar-se com movimentos que se pareciam com os de uma marioneta que dança sem qualquer graciosidade, desconjuntada. 24 Novembro

Quanto pode custar atravessar um dia? 1 Dezembro

Tentar encontrar o sentido das coisas quando a vida é desprovida de amor. Existirá algum? 15 Dezembro

É outra vez o último dia do ano. Não consigo distinguir este do ano passado. Atravessei o inferno e cheguei a esta paz. E o que fazer com este deserto de emoções? 31 Dezembro

Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas ( como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar) ; e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira

Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

herberto helder