
Que ao adormeceres tenhas encontrado uma praia sem fim, e nela possas correr sem dor.

Que ao adormeceres tenhas encontrado uma praia sem fim, e nela possas correr sem dor.
Mas se um dia voltares, Nému, acorda-me, como inesperadamente me acordaste uma noite. Não me deixes dormir mais, desperta-me e tudo se iluminará num gesto, num sorriso teu. Talvez não seja tarde ainda para começarmos a regressar um ao outro. Basta beber o mel que sempre bebemos no sexo um do outro, e de novo sentir o turbilhão de alegria que nos despertava a meio da noite para o amor.
(…)
Regressa, Nému. Regressa ao escorrer dos dedos enrolados no sexo, ao riso matinal dos corpos saciados, às nocturnas conversas das esplanadas, aos jogos de sedução, aos engates, ao murmúrio das vozes nos becos da cidade, à ofegante trepidação da manhã, regressa… regressa Nému.
Porque as palavras não te substituem e estão cheias de pústulas no coração das sílabas.
Al Berto | Lunário
Este ano o verão atravessou
Lisboa. O verão foi invisível.
Atravessou a cidade e os outros
levou do meu corpo
memórias do teu nome.
joão miguel fernandes jorge
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te vou perdendo a noção desta subtileza. Aqui chegado até eu venho ver se me apareço e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez
vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça.
Cesariny
Apaixono-me facilmente no início da Primavera. Posso dizer que se trata de um estado de espírito. Acontece independentemente dos outros. Acontece de dentro para fora. Eu sou a origem da paixão. Eu e a Primavera.
Atribuo o amor.
Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.
António Lobo Antunes
o vento sopra entre as pausas das palavras.
que é como quem diz,
o tempo passa no teu silêncio.
já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase.
vasco graça moura
Tandis que je ne vous aime plus je n’aime plus rien, rien, que vous, encore.
Marguerite Duras
levo uma ausência sob o luto do meu guarda-chuva.