E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto —
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.
Fernando Pessoa
E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto —
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.
Fernando Pessoa
segreda-me a canção dos dias
sem que nos ouça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não pára de nascer.
segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte.
vasco gato
11 janeiro 1948 – 13 junho 1997
Ah! Como tenho sede doutras vidas, como desejaria o silêncio magnífico das profundidades do mar. Um dia deixarei de escrever, de ler, de dormir, de comer, de me apaixonar, deixarei pura e simplesmente de viver, no entanto estarei irremediavelmente vivo. Irremediavelmente acordado para as catástrofes do fim do século. Estarei acordado dentro do meu corpo envelhecido, atento às doenças da alma. Visões, alucinações palpáveis, miragens, orlas de oceanos e desertos. Lugares onde o viço da vida desponta devagar, esparso ainda. Aqui sobrevivi, na orla da vida. Como poderei adivinhar o futuro, ou ter esperança, se a vida na orla do deserto se reduz a pequenos nichos, escassa chuva, raros rostos, memórias que se apagam de hora a hora e que eu não registo nem guardo, porque tenho relutância em lembrar-me seja do que for. Só quero ter na memória o que está por acontecer. Que forma terão os meus pensamentos depois da minha morte? Conseguirei continuar a escrever? De que maneira?
Al Berto | Diários
Sometimes a wind blows
And the mysteries of love
Come clear.
Angelo Badalamenti, David Lynch