Arquivo: 2009

Faço hoje 30 anos. Que fiz eu até hoje? Como custa concluir que não fiz nada. Não percebo como pude jamais convencer-me de que tinha possibilidades de realizar grandes coisas. Há sete anos acreditei fortemente que viria a ser um bom escritor. Acabei detestáveis livros que a crítica dependurava nos cornos da lua e – o que é mais estranho – acha-os ainda hoje superiores. Durante estes sete anos escrevi três romances, um livro de contos, dois trabalhos de crítica, umas dezenas de artigos e conferências, o 1º volume de um romance. Tudo falhado. Mas será preferível acreditar realmente que não presto? Cruzar os braços? Confesso: sinto-me derrotado. Mas trabalho sempre.

Vergílio Ferreira | Diário Inédito

ode à alegria

Só amamos
aquilo que amamos em vão.

Tenta outra sonda de rádio
quando dez tiverem falhado,
toma duzentos coelhos
quando cem tiverem morrido:
só isso é ciência.

Perguntas o segredo.
Tem um só nome:
de novo.

No fim
um cão traz nas mandíbulas
a sua imagem na água,
pessoas fixam a lua nova,
amo-te.

Como cariátides
os nossos braços erguidos
seguram o peso do granito do mundo

e derrotados
venceremos sempre.

Miroslav Holub

A beleza
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza
Não é mais que o desejo
Fremente
Que nos sacode…
- O resto, é literatura.

António Botto

julho arrefeceu os lençóis
madrugadas de papel forraram paredes

choro quando caminho por lisboa antiga
a grande avenida no início da noite
águas subterrâneas conduzem-me para o cais

hei-de esvaziar o tejo e enchê-lo novamente
pedir-te que escrevas um poema e o leias ao contrário
fazer acrobacias contigo na torre do castelo

adormecer esta noite numa rua de meninas
e acordar com as mãos cobertas de azul.

1999

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

(…)

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Álvaro de Campos | Aniversário

Como é que é possível? Onde a realidade profunda da tua pessoa, meu velho? Onde, não os teus olhos, mas o teu olhar?, não a tua boca, mas o espírito que aí vivia? Onde, não os teus pés ou as tuas mãos mas aquilo que eras tu e se exprimia aí? Vejo, vejo, céus, eu vejo aquilo que te habitava e eras tu e sei que isso não era nada, que era um puro arranjo de nervos, carne e osso a apodrecerem. Mas o que me estrangula de pânico, me sufoca de vertigem é teres sido vivo, é tu estares ainda todo uno para mim, na memória do teu riso, no tom da tua voz, que era lenta, sossegada, nas ideias que punhas  a viver entre nós, na realidade fulgurante de seres uma pessoa.

Vergílio Ferreira | Aparição