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fragmentos do diário XXII – breves de 2013

é uma luta esgotante. não estou a conseguir voltar. a semana começa e tenho vontade de tomar uma mão cheia de comprimidos. 8 de Janeiro

a verdadeira derrota é quando sabemos que trocaríamos a nossa vida pela vida de um “esteves sem metafísica”. quando entre o nada e a dor, preferimos o nada. hoje dei por mim a pensar que não hesitaria se o pudesse fazer. 16 de Janeiro

com ela existe ainda a vontade de chorar depois de fazer amor. 18 de Janeiro

os dias têm passado lentamente, uns iguais aos outros. vou trabalhar ou fico em casa, vejo pessoas ou não, dentro de mim é sempre o mesmo. 24 de Janeiro

vinte e três anos depois estávamos ali, emocionadas e trémulas, vivas. os anos que vivemos eram nossos novamente. falámos das saudades, das brincadeiras de criança, das montanhas que rodeavam a cidade. partilhámos a dor e a dor fez sentido. e penso em “A”. e sei que toda a vida esperá-lo-ei. ele não virá. nem daqui a vinte e três anos. e tudo o que vivemos só eu guardarei na memória. como uma história inventada. 7 de Fevereiro

seria bom poder ir para outro sítio, onde pudesse viver sem muito dinheiro e os dias fossem lentos dentro e fora de mim. poder escrever e olhar a paisagem seca do trigo. 11 de Fevereiro

na sala de espera do psiquiatra. conversas sobre loucura, isto tem de ter um fim, oiço. não terá, mal sabem eles. toda a dor é para sempre. 26 de Fevereiro

agora que começa a chegar a bonança, a devastação deixada pela tempestade torna-se mais visível.
é lento o caminho. durante a tempestade reage-se aos desastres, não se pára a olhar para as ruínas. é quando a tempestade passa que olhamos em volta. e subitamente nada é como era. quem existia já não existe e fomos irremediavelmente mudados. não há volta atrás, não há como abrir os olhos e esperar acordar de um pesadelo. o desastre aconteceu. para sempre. para sempre. 7 de Março

chove muito lá fora. o barulho da chuva sobre os telhados lembra pequenas explosões. é difícil dormir assim. fico atenta, como se a qualquer momento pudesse dar-se uma explosão estrondosa. 8 de Março

uma noite com ela, um novo engano. o mesmo engano. é como uma droga. exactamente como uma droga. 12 de Março

nada me salva hoje da solidão. 13 de Março

se ao menos algo aparecesse na minha vida. 15 de Março

a tua morte estende-se pelo meu corpo e por toda a cidade. esta cidade que era nossa. a tua morte estende-se pelos anos que ainda não vivi. 13 de Abril

há sempre um momento do dia em que a tua morte me apanha de surpresa. 22 de Abril

diz-me “um pé bate no outro e eu caio”. dias depois “os meus pés andam mais depressa do que a minha cabeça quer”. uma tristeza sem fim. estou a perdê-la. 27 de Abril

todos os dias um velório. 7 de Maio

não tenho escrito. a mãe continua doente e “A” nunca mais voltou. 19 de Junho

é ainda uma linha ténue que separa o equilíbrio do caos. prossigo devagar, sem meta. 20 de Junho

faz hoje 10 meses. e ainda te vejo deitado no caixão, os braços sobre o peito. 28 de Junho

a solidão toma os dias de assalto e sento-me junto ao tejo à tua espera.
há-de cair a noite e tu não regressarás de nenhuma viagem. 6 de Julho

é preciso encontrar o fim dentro do fim.
perceber que a última palavra a dizer-te, já foi dita. não prolongar. 11 de Julho

ou prolongar. deixo que ela venha ter comigo. fodemos violentamente. quero magoá-la. cortar-lhe a respiração. que inferno este amor. 15 de Julho

olho longamente para o calendário. fará um ano dentro de alguns dias.
a vida continuou. os dias, as noites existem ainda. esta cidade ultrapassa-nos e permanece.
oiço-te muitas vezes. guardo a tua voz tão intacta que dou por mim a falar alto, como se falasses comigo.
onde estarás agora? haverá um outro lugar, para lá da tangerineira? 23 de Julho

assim chega o mês da tua morte. este ano em que todos os meses foram o mês da tua morte. 2 de Agosto

acordo repetidamente com os meus próprios gritos. os pesadelos multiplicam-se. 10 de Agosto

envelhecerei sem ti, com os olhos ainda sobre o tejo e a embriaguez terrível de continuar viva. 11 de Agosto

hei-de escrever ainda sobre a tarde domingo em que ela tentou foder-me como uma estranha.
hei-de escrever sobre a dor. 14 de Agosto

envolvo-me não me dando. permaneço no fundo de mim mesma. abandono o corpo e deixo-me ficar, há uma certa indiferença, como matar só porque um raio de sol bateu na navalha. 22 de Agosto

mal sabia eu, há um ano atrás que em 24 horas ficaria sem ti. 27 de Agosto

faz hoje um ano da tua morte.
ainda me espanto ao escrever isto – a tua morte.
hoje é mais um dia sem ti e dói como todos os dias deste ano doeram. 28 de Agosto

agosto passou lentamente, em constantes lutas internas, com a morte a cada esquina. 5 de Setembro

os olhos dela perseguem-me neste instante. verde água. luminoso afogado. 10 de Setembro

há três dias que chove. o cinzento dos dias arrasta-se para dentro de mim. 30 de Setembro

foi um ano de um lento regresso, este.
a palavra amor deixou de se repetir. a urgência acalmou. 11 de Outubro

escrever foi desde sempre a tentativa de fugir à loucura. organizar-me, escapar ao abismo, regressar do caos. 13 de Outubro

o amor. talvez tenha acabado por fim. talvez já tenha acabado há muito tempo. 14 de Outubro

ser-me-á sempre difícil viver de dia. a noite traz este silêncio, esta casa que me é natural, esta ausência dos outros que me permite voltar ao centro de mim. 18 de Outubro

há horas que chove. irá chover todo o dia e toda a semana. o inverno aproxima-se, o tempo tornar-se-á lento, o frio instalar-se-á por baixo da pele e tenho medo da solidão. 23 de Outubro

quero o fim desta história. 30 de Outubro

esta tristeza que se alastra como uma cidade dentro de mim.
não sei o que espero. que amor, que salvação ou inferno.
estou à margem de tudo. tu já não existes e os dias doem. 3 de Novembro

esta casa, esta luz, abrir a janela e sentir-me em lisboa é como um milagre diário. 8 de Novembro

é como num filme. duas mulheres conhecem-se, envolvem-se por uma noite, fazem planos de se voltar a ver mas perdem-se durante quinze anos. quando se reencontram a paixão volta como se só tivesse sido guardada à espera deste momento. 14 de Novembro

já não sabia o que era fazer amor sem violência. 15 de Novembro

toda a sua vida parece girar em torno deste novo amor. é preciso amármo-nos muito pouco para abdicarmos de nós. nenhum amor sobrevive pela fusão. nenhum amor é amor pela anulação de um amante. o seu amor não é uma dádiva, ela ama para que a amem. porque depende do amor para se alimentar, não de alguém mas do sentimento amoroso em si. amar o amor é esquecermo-nos do outro. amar o amor é amar muito pouco, se é que é ainda amar. 3 de Dezembro

há muito tempo que deixámos de fazer árvore de Natal, não há prendas e a família não aparece. há uma mesa posta com uma toalha velha, guardanapos de papel estampados e garrafas de água. há a loucura e os gestos muito lentos, a falta de forças para trazer a bandeja para a mesa e a memória longínqua de uma casa cheia, com árvore de Natal e tantas prendas que se amontoavam em seu redor. 24 de Dezembro

sucedem-se imagens de pessoas mortas na minha cabeça. 25 de Dezembro

podia a morte chegar neste momento. pode um qualquer sopro levar-me, o meu corpo está leve como se não me pertencesse. 28 de Dezembro

último dia do ano e a angústia dissipou-se. durmo nos braços de uma estranha. 31 de Dezembro

é preciso encontrar o fim dentro do fim.
perceber que a última palavra a dizer-te, já foi dita. não prolongar.
a última noite de amor repetiu-se ao longo dos anos. até que cada última noite de amor era na verdade a primeira noite de amor.

não prolongar. aceitar que a última vez aconteceu numa qualquer dessas noites.

nenhuma palavra será a última. ficará sempre qualquer coisa por dizer quando tudo já tiver sido dito.

a memória da pele irá arder por muito tempo. não prolongar.

Julho 2013

um ano sem ti, rogério

dizem que o coração pesa cerca de 300 gramas.

não sei quanto pesava o teu. nunca falámos disto – quanto pesa um coração. sabemos bem quanto te pesava o coração. mas não era em gramas que o medíamos. e hoje sei que te abriram numa mesa, que te tiraram o coração, que o colocaram numa balança. órgão a órgão, tiraram-te tudo para pesar.
e o peso da tua vida onde está medido? e o peso da dor que a tua morte deixou, onde está medido?

sobre a cama, o corpo estendido. os pulmões preparam-se pela última vez. talvez tenhas visto o tejo a irradiar azul, como imaginaste. depois nada. ficaram os poemas inacabados, ficou o livro que não acabaste de ler pousado na cabeceira. chegam os paramédicos, chega a polícia. tu continuas ali, o sangue deixou de correr e obedece agora às leis da gravidade. preenche-se relatórios e tu continuas ali, arrefeces. e para nós que ficámos cá o frio prolonga-se e é inverno em pleno agosto.

a noticia da tua morte chega-me todos os dias. ecoa pela cidade, por todo o lado, por todo o lado.

existe o medo dos dias que se arrastam. as noites brancas, muito mais brancas que antes. as manhãs sós, a tua casa vazia.

envelhecerei sem ti, com os olhos ainda sobre o tejo e a embriaguez terrível de continuar viva.

assim chega o mês da tua morte. este ano em que todos os meses foram o mês da tua morte.

os dias arrastam uma tristeza crescente.

olhei longamente o mar e pensei que é preciso sentir a morte dentro de nós para perceber o abismo das águas.

agosto não tarda a chegar. dentro de mim agosto durou o ano inteiro. só dentro de mim agosto foi frio.

a solidão toma os dias de assalto. sento-me junto ao tejo à tua espera.

há-de cair a noite e tu não regressarás de nenhuma viagem.

São as ruínas de Lisboa que me comovem. A beleza decadente, como uma mulher lindíssima que chega à terceira idade. Esta solidão intrínseca, íntima como um segredo.
Não tenho Deus. Tenho Lisboa. É esta cidade que me guarda.

talvez não exista uma forma de fazer desaparecer totalmente a esperança. quando já não temos esperança, temos ainda esperança. um amante tem sempre esperança, faz parte da sua condição de amante. e se ele ama independentemente da sua vontade, então a esperança existe também, independentemente da sua vontade.

acreditar ou não no futuro de um amor não influencia a esperança. acreditar ou não é um processo racional e nada tem a esperança a ver senão com movimentos involuntários das emoções.

se na Caixa de Pandora todos os males estavam guardados e ao abri-la todos se espalharam excepto a esperança quererá isto dizer que os gregos acreditavam que a esperança era um mal?

quando temos esperança apesar de, quando temos esperança contra a razão, contra o mundo, é a esperança uma maldição.