setembro passou sem ti.
chove violentamente dentro de mim.
setembro passou sem ti.
chove violentamente dentro de mim.
Olhar para a cadeira vazia à minha frente e ver-te a acender a cigarrilha, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado que te dava um ar quase infantil, os gestos demorados, o livro em cima da mesa para a partilha de uns versos. Um copo de são domingos, por favor.
O ano passou e passou o primeiro dia do ano novo.
É verdade que já não espero muito. Só a literatura me teria salvo. 1 de Janeiro
Penso na morte ininterruptamente. Não quero estar aqui. Já não.
Estou cansada de sentir. Não aguento esta dor.
Ela disse que viria e não veio. 2 de Janeiro
Aterroriza-me esta fragilidade. 4 de Janeiro
Meu amor este amor é uma doença que se alastra. 7 de Janeiro
Onde está o meu limite? Porque me castigo ficando neste amor? 11 de Janeiro
Esta viagem era nossa. Sentada no avião rumo a Paris. A solidão é absoluta. E é preciso seguir em frente e não estou certa de querer seguir em frente. 14 Janeiro
A devolução da escrita. A escrita contra a loucura. 22 de Janeiro
É preciso aceitar a total destruição para te amar. 23 de Janeiro
Jamais alguém perceberá este amor. Nem porque é que os meus dias são tão vazios quando não estás.
A falta de forças que sinto diante de ti não é digna de ser vista. 24 de Janeiro
E se não me queres, porque insistes no meu nome? 25 de Janeiro
E foi sempre assim em cada regresso. Eu a acreditar, tu a não conseguires, nós a afastarmo-nos. 28 de Janeiro
Preciso fugir de ti. 1 de Fevereiro
Escrever contra a loucura. Escrever contra ti. Escrever contra o amor. Contra a tristeza, contra a passagem das horas, contra as saudades, contra a vontade, contra a memória, contra a imagem do teu corpo, os teus olhos, a tua boca, as tuas mãos.
É tarde agora. É demasiado tarde. Tarde para te amar. Tarde para deixar de te amar. 2 de Fevereiro
O mais desesperante já não é a tua ausência. É saber que irás continuar a reaparecer. 3 de Fevereiro
Respirar fundo e aceitar o silêncio. É preciso aceitar o silêncio.
Bater em qualquer coisa até que os punhos se abram. Até que a dor seja exterior também. 4 de Fevereiro
Arrumo a casa, lavo a loiça, faço o jantar, ponho a máquina a lavar.
É preciso continuar. É preciso continuar. 5 de Fevereiro
Morrer. Morrer. Morrer. 6 de Fevereiro
Um nó na garganta de tal forma que provoca dor. Mas não choro. 18 de Fevereiro
E a se a loucura desaparecer dos seus olhos amá-la-ei ainda? 23 de Fevereiro
Se deus existe, peço-lhe um milagre. 24 de Fevereiro
As palavras “eu mato-te” ecoam, não consigo parar de as ouvir.
É um caminho sem retorno. E não sei o que é andar em frente sem olhar para trás. 3 de Março
É por baixo da pele, muito longe de mim o que me dói. É por baixo da pele, muito longe de mim que estou. 4 de Março
O que significa nunca mais? 5 de Março
Duas e vinte da manhã e eu amo-te. Duas e trinta da manhã e eu amo-te. 11 de Março
Tão cansada deste amor. 16 de Março
Quatro dias para me relembrar como é perfeito quando estamos bem. Esta certeza irrefutável do amor. E o que fazer com esta certeza?
Disse-lhe “esvaziaram-me por dentro e só ficaste tu”. 22 de Março
Às vezes tenho vergonha de amá-la. 27 de Março
O teu corpo já não é um segredo que encerro.
À força de tanto te dares gratuitamente o teu corpo gastou-se noutras mãos.
e as tuas mãos no meu corpo já não são uma descoberta do teu prazer. São sons repetidos em vozes diferentes cada noite. 28 de Março
Em que parte do caminho te esqueceste de mim? Em que parte do caminho deixámos de ser únicas uma para a outra?
Já nada é possível e permanecemos ainda, presas à perfeição de um amor que julgámos eterno. 29 de Março
Respiro o vazio. Respiro este amor que me esvaziou. 1 de Abril
O amor existe apesar de. 2 de Abril
Quando ela não está o mundo inteiro é ausência. Quando ela está o mundo inteiro é ausência. 5 de Abril
De nada me vale um amor que abandona. 7 de Abril
Valha-me o mundo para assegurar-me que não estou louca. 11 de Abril
Estava como queria estar. No início do precipício. Viva. Com ela. Louca de desejo. 17 de Abril
Este amor devolve-me. Mesmo quando repleto de dor. 19 de Abril
O que estou eu a permitir? 29 de Maio
Atiro uma garrafa contra o chão e os vidros espalham-se por toda a sala, ao redor dos meus pés. Leva-me ao limite. 30 de Abril
Há momentos em que penso que se é para ser assim, deixem-me ser triste de uma vez. 31 de Maio
Falho-me. 28 de Junho
Que amor é este? 22 de Agosto
“tudo o que disseres poderá ser e será usado contra ti” 29 de Agosto
Não sinto nada. Não me comovo. 5 de Setembro
Tenho de lembrar-me disto: estar com ela faz-me mal. Quando as saudades vierem tenho de lembrar-me destas noites em que me deixa só. Este vazio. Esta tristeza. Esta certeza. 10 de Setembro
O tempo estende-se. Esqueço-me de tudo. Não penso, deixo que as horas passem muito lentamente. 13 de Setembro
Estou mentalmente exausta. De tal forma que até fisicamente me sinto exausta. 17 de Setembro
A raiva que preenche tudo, que se alastra pelas ruas, a sensação de nojo no corpo, os olhos verdes presos a mim, o delírio, a violência, o amor que se cola contra a minha vontade. 3 de Outubro
A noite é um lugar de perigo para os que amam. 7 de Outubro
Meu deus, que pesadelo. 8 de Outubro
Foi arrancada parte de mim. Levanto-me e continuo. Mas não estou inteira. 10 de Outubro
Neste momento, sei tão pouco de mim. 14 de Outubro
É mais forte que eu. Como é que é mais forte que eu? 17 de Outubro
Morro por notícias dela. Morro dela. Dos olhos dela. Mas continuo. 19 de Outubro
Não sei se estou preparada para o que a terapia pode fazer de mim. Não sei o que é uma versão mais equilibrada de mim. 27 de Outubro
Sou tão apaixonada por ela hoje como há um ano. Ou muito mais. 27 de Outubro
Rezo para que não me diga nada, para que não apareça e ao mesmo tempo tudo o que quero é que apareça. 3 de Novembro
Ganharei eu lucidez para deixar de a querer? E quem eu sou, não se perderá também? 6 de Novembro
Construo defesas por dentro de mim. É como se mil estradas dentro de mim existissem. Faço meio caminho, encontro-a, construo um muro, sigo por outra estrada. 8 de Novembro
Todos os seus movimentos me ferem. Os que faz, os que a memória me traz, os que imagino. 15 de Novembro
À espera dela. A tremer. 28 de Novembro
Olhamos uma para a outra e dizemos ao mesmo tempo “amo-te”. 29 de Novembro
O que me salva deste amor quando só este amor me salva? 2 de Dezembro
Existirá alguma felicidade que dure mais que minutos? Ou será que tudo tem de estar sempre repleto de dor?
Este amor é uma armadilha. Uma vertigem, uma queda livre constante. 7 de Dezembro
Não há nada de novo aqui. Estar com ela é uma repetição. Já não é inteiro estar com ela. 9 de Dezembro
Vinham ter comigo. Puxavam-me para dançar. Tantos corpos ao meu redor. Sentia-me eu, sem precisar de ninguém. 10 de Dezembro
Que venham outros corpos. Sinto uma sexualidade excessiva em mim. 13 de Dezembro
Quero fugir do mundo real e viver só de histórias. 14 de Dezembro
Parar e olhar um rosto. Ter a noção do outro. E perceber que esse outro não é ela. 21 de Dezembro
Mensagem dela: “Em tua casa. Meia hora”. 27 de Dezembro
muito antes dos teus olhos já eu te amava. muito antes dos meus olhos já me tinhas abandonado.
“oh give me the words that tell me everything”
a tua existência fere-me. tudo te traz de volta. esta casa. olhar em volta e ver-te em todo o lado. sentada à minha frente, a sorrir-me, levantares-te para me vir abraçar. tu a vestires-te, tu nua, em frente ao espelho, deitada, sentada no lavatório enquanto me vês a tomar banho, beijos no corredor, a fazer o jantar comigo, a fazer chá e torradas, “amor não te queimes!”, na sala a beber um café, o riso enquanto me contavas o teu dia, por cima de mim no sofá ou eu no teu colo, todas as despedidas à porta, todos os regressos.
onde te perdeste? o teu olhar que antes me contava histórias inteiras está agora vazio.
ainda te amo. as horas passam, os meses passam e ainda te amo.
amo as noites intermináveis ao redor do teu corpo. amo o teu riso, amo o teu olhar a salvo da loucura, amo os teus cabelos longos sobre o meu rosto, amo o futuro que quisemos construir.
amo tudo o que em ti já não existe.
o horror desta cama com o peso do teu corpo morto a meu lado.
mais um cigarro e o sono virá. permaneço viva num turbilhão de sangue. estendo-me nos anos que viverei sem ti. conheço o futuro. a cidade destruir-se-á e nenhuma palavra virá para me salvar.
Tenho a sensação de dor por todo o corpo. Como se os ossos estalassem lentamente, um a um. A dor preenche-me ao ponto de me contorcer na cadeira. E na verdade nada me dói.
É por baixo da pele, muito longe de mim o que me dói. É por baixo da pele, muito longe de mim que estou.
2010. Esta contagem sufoca-me. “Que fiz eu da vida?” 27 Janeiro
Ela surge. Precipito-me para fora de mim. Esta vertigem nos olhos dela. E a sensação, quase a certeza, que deveria fugir. Que a perda é sempre inevitável, que a dor virá, que faltar-me-ão as forças. 28 Abril
A capacidade de acreditar é em mim uma memória longínqua.
Desabituo-me facilmente da felicidade. E quando ela chega, demoro a reaprender os movimentos do corpo. 28 Abril
Lisboa anoitece dentro de mim. Percorro as ruas, o rio, até que a lentidão dos passos acalme o corpo.
A tristeza foi sempre a última morada. 15 Junho
Se ela não está, falta-me o ar. 29 Junho
Não acreditava já num amor assim. 30 Junho
Às 9:05 da manhã faltou o telefonema dela. Há 21 anos que falta o telefonema dela. Há 21 anos que deixou de fazer sentido festejar um dia em que a saudade me corrói. 3 Julho
Podia o amor bastar. 16 Agosto
Descubro que já não sou adolescente quando lhe digo que não tenho de me perder para amar. Que duas pessoas podem amar-se continuando a existir. 17 Agosto
Existe este amor. São cinco da manhã e existe este amor.
Dentro e fora de mim ele existe e tem um punhado de facas para me ferir. 19 Setembro
Tenho algumas esperanças na vida – que o mundo irá mudar, que grandes revoluções serão feitas. Não tenho esperanças em mim. 20 Setembro
Este amor é uma maldição. 22 Novembro
Acreditei tanto quanto é humanamente possível acreditar. E repetidamente ela traiu este amor. 22 Novembro
Não percebo este amor que abandona. 10 Dezembro
Ela volta e diz que me ama e eu fico porque não sei não ficar. Este amor, esta dor, prende-me à vida. Descubro que ainda sinto, que ainda choro. 10 Dezembro
Esvaziei-me neste amor. Corri quilómetros para longe de mim. Falhei-me. 11 Dezembro
As saudades colam-se aos ossos. Cada passo que dou nesta casa é um passo sem ela. 19 Dezembro
É preciso deixar que as palavras voltem. 18 Março
A paixão constante. A paixão multiplicada. Os envolvimentos gratuitos envoltos num amor inventado.
E o que pode parecer uma máscara é ainda o que me devolve. Sinto em excesso. Sinto o excesso. Respiro. 20 Março
Apaixono-me facilmente no início da Primavera. Posso dizer que se trata de um estado de espírito. Acontece independentemente dos outros. Acontece de dentro para fora. Eu sou a origem da paixão. Eu e a Primavera.
Atribuo o amor. 20 Março
A nossa história terá tido somente um começo. Pode ter sido um momento na cidade. De mãos dadas na cidade. Não haverá meio nem fim. 23 Março
O cansaço é quase insuportável. 9 Junho
Nada me surpreende. A luta tem de ser diária para não cair num suicídio vivo que sinto cada vez mais próximo. 20 Novembro
Sinto cada vez menos falta de pessoas. Cumpro o dever de sair de casa, trabalhar, ser social, como esperam de mim. Há em tudo indiferença. Faço o que tem de ser feito, nem mais, nem menos. 20 Novembro
Chorei compulsivamente ao longo do dia. Podia ter chorado horas, até esvaziar o que dentro de mim ainda resta. 25 Dezembro
A cidade, esta cidade, é um nome longínquo. 31 Dezembro
Há muito que queria escrever. Parar seria obrigar-me a pensar. A fuga era mais fácil. 6 Fevereiro
Esta solidão. Cola-se às paredes internas do corpo. Entranha-se.
Esta tristeza. 6 Fevereiro
Tenho cada vez mais dificuldade em expressar sentimentos. Sou incapaz de admitir que às vezes as saudades são aterradoras. 6 Fevereiro
Hei-de colar uma fotografia sua neste diário. Como Anais fez com June. Para que ninguém duvide. 21 Março
É através da solidão que chego a mim. Só a solidão me devolve a liberdade. 21 Março
Os anos deixam marcas. Acredito pouco. Deslumbro-me pouco. Mantém-se apenas este desejo, quase como uma necessidade vital, de amar no limite, de amarem-me no limite. 22 Março
Sinto falta. Não consigo nomear. Apenas sinto falta. 23 Março
- Quero-te.
- E se eu te quiser também? 27 Março
Sou uma casa vazia estendida sobre os anos. Em breve não haverá espaços em branco e sufoco dentro das minhas memórias. 28 Março
O passado agride-me. Tudo o que desaparece, tudo o que muda. Perco-me por perder. Exponho-me à tristeza. Podia facilmente viciar-me nesta dor.
Sou imortal dentro da tristeza. Vivo desde sempre. Ainda que pressinta a morte, ela não virá. Serei a obrigada a levar a tristeza ao limite, a viver com estes fantasmas, como o peso do mundo sobre as costas de Atlas. 28 Março
É tudo uma mentira. Um engano. 12 Abril
A sua beleza, a sua loucura, a sua maldade. Ela levar-me-ia à destruição.
Por isso me atrai. 12 Abril
A vida de todos os dias esgota-me. 3 Junho
Para lá do cansaço, da solidão, da tristeza, permaneço. Vivo numa redoma de vidro. Mas ninguém vê. 3 Junho
Dentro de mim os dias correm devagar. Tudo acontece no mundo exterior, pelo qual raramente sou tocada. 4 Junho
Sinto-me fora do caminho. Há um abandono dos sentidos. Na verdade, quase tudo me é indiferente. 4 Junho
O amor alastra-se em nós como uma doença. É assim ainda que ela não o veja. Precipito-me para a loucura. 13 Junho
Regresso à tristeza, à “voracidade dos tigres nocturnos”. Podia ficar deitada durante horas a ouvir a minha própria respiração. Até que um qualquer amor, um engano, me viesse salvar. 18 Junho
Em que parte do caminho me perdi da vida? 18 Junho
Acabo mais um diário. O segundo nos últimos oito anos. Já não acredito em recomeços. A vida é uma linha recta sem interrupções. Arrasto-me nos dias. Existo ainda.
Envelheço mais depressa na ausência da escrita. 18 Junho
Pressinto Janeiro no começo deste diário. A repetição dos dias. A
contagem lenta, sempre igual, do tempo. A rotina das palavras, dos
gestos. Tudo se prolonga. Não há nada de novo. 24 Junho
Disse-me “apetece-me beijar-te”. E beijou. Não sentia qualquer desejo mas deixei que o fizesse. Tanto me fazia. 25 Junho
“O meu diário em troca do teu.” E não percebe que ao dizer-me isto imediatamente me perde. 26 Junho
Alastra-se a solidão, fere-me, deixo-me ferir. Aceito a ausência do mundo. Há muito que me retirei. 25 Julho
Talvez esta solidão me devolva a escrita. Talvez não devolva nada, talvez roube.
Envolvo-me numa tristeza que não pressenti. Falho-me. 7 Agosto
No jardim de Serralves. Um silêncio quase absoluto.
Nenhum regresso é possível. O passado alastra-se e fere-me e as noites são demasiado dolorosas.
Faço um esforço para conhecer pessoas. Mas que importa? Duas horas de uma solidão um pouco menos atroz é o que consigo. 9 Agosto
Acabei há minutos de ler um livro de Duras. Há muito que não acabava um livro. Passam-se meses sem pegar num livro. Vivo dentro dos livros que já li. São eles que me salvam. 9 Agosto