Arquivo: 2007

fragmentos do diário IV

Anaïs, Anaïs.
Deslumbro-me com a vida de Anaïs que, aos vinte anos, ainda julgava poder engravidar com um beijo.
Depois de casar com Hugh, não mantiveram relações sexuais durante mais de um ano. Assim, apesar de a “mulher-anjo-diabo” namorar com todos os rapazes que lhe faziam a corte, e enumerá-los – rapaz n.º 1, rapaz n.º2, manteve-se virgem até tardíssimo – escondendo isso do próprio diário.

29 Agosto 1997

fragmentos do diário III

Há dias, à saída do cinema, uma troca de olhares. Ela aproximou-se.

- Conheces-me?
- Não. – disse eu, a medo
- Então estavamos a brincar?
Sorri.
- Se estavamos a brincar foi muito bom – e riu-se. Estremeci.
Dei-lhe o meu número de telefone. Não telefonou.

No sábado fui ao cinema. Encontrei-a.

- Não me telefonaste. – disse
- Não.
- Porquê?
Ela sorri.
- Quando me lembrava já era tarde.
Olhava para os olhos verdes dela. Pensava em “B”. Esta mulher é mais bonita.
- Amanhã? – perguntei-lhe.
- Amanhã não, um dia.

19 Maio 1997

fragmentos do diário II

Continuo a ler “Ana Karenina”. Estou quase a meio.
Ana está grávida de Vronski. E agora?

Paralelamente, leio “Viagens na minha terra”. É um livro delicioso. Passei agora para o capítulo XXI. Sinto-me extremamente feliz por isso. No início, pensei que jamais conseguiria ler este livro.

11 Fevereiro 1997

fragmentos do diário I

Um gato preto em cima de um telhado de telhas vermelhas – daqueles à moda antiga. Imagem de extrema beleza que jamais conseguirei transportar para a minha escrita. Aquilo que escrevo desconhece esta simplicidade.
Descrever os movimentos de um gato, que observo da janela do meu quarto não é para mim.
Escrevo sobre pais que fodem com filhas. Que fazer?

26 Janeiro 1997

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Be daring, be different, be impractical, be anything that will assert
integrity of purpose and imaginative vision against the
play-it-safers, the creatures of the commonplace, the slaves of the
ordinary.

Cecil Beaton

As Meninas da Rua 17

Chegavam silenciosas, noite alta,
comboiando o estrangeiro
faminto de alma.
Depois, no quarto ao lado,
com homens variados,
faziam explodir os seus gemidos
que ouvíamos sorrindo, sussurando belezas.
Era sua a verdade?
Era tanto o prazer?
Gemiam por gemer
Ou por delicadeza?

De manhã tomavam banho,
um pão com leite e mais nada.
O piso húmido ficava
com vestígios
e pegadas.

Nunca lhes vi bem a cara.
Mas que importância tem isso?

Só tinham a ver comigo
na medida em que era tanto
seu ser simplesmente humano.

E que tinha um par de ténis.
E que elas tinham
vinte anos.

Renata Pallottini | Um Calafrio Diário

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Um amigo mostrou-me este poema há dias. Não deixa de ser estranho olhar para este título :)

Nevoeiro sobre Lisboa

percorro à chegada a cidade encoberta
à procura de um livro de poemas
indicado por um amigo

tudo se encontra e nada me contenta
lisboa não cabe no velho alfarrabista

e vagamente penso em ti enquanto olho o cais

o tejo, hoje, cai do céu