“C” diz-me: “Imagino os anjos com cabelos loiros e encaracolados. Quando penso em ti lembro-me um anjo”. Horas depois “A” diz-me: “Contigo descobri que os anjos podem ter cabelos encaracolados”. 10 Junho
É tão fácil amar e há tantas maneiras de o fazer, diz Anaïs. 17 Junho
A ler “Casas de Assombradas”, de Lynne Tillman. 19 Junho
Laurie Anderson o dia todo. 20 Junho
Tudo o que fiz foi ler. “Primeiro Amor” de Turguniev e “Ida” de Gertrude Stein. 21 Junho
E se de repente o mar entrasse pela minha porta? 21 Junho
Este diário vai começar a ficar escondido num sítio muito seguro, onde ninguém o possa encontrar. 22 Junho
Tive vontade de lhe dizer “amo-te”. Mas não. 29 Junho
A ler a página 92 do Monte dos Vendavais. Uma maravilha. 29 Junho
A vida de cada um toma um caminho próprio, e se sigo o caminho dela vivo também a vida dela. 16 Julho
Gosto dele como quem gosta de uma mulher. 16 Julho
Dois anos depois, uma carta de “B”. 20 Julho
A carta que “B” me escreveu é uma carta de amor. Tudo voltou. 22 Julho
Não tenho lido nada. Como é que sou capaz de não ler? 23 Julho
Começo a levar um tipo de vida que nem todos aceitam. Ela diz-me que não tenho moral. 31 Julho
Leio e delicio-me com o Diário de Katherine Mansfield. Não pude resistir, tive de deixar a Anaïs por uns dias. 6 Agosto
Buscar a solidão e amar as mais simples coisas da vida. Talvez seja unicamente isto, além dos livros, que vale realmente a pena. 15 Agosto
Apesar de ter acordado com dores de barriga terríveis e de continuar ainda ligeiramente mal disposta sinto-me imensamente feliz por saber que este é o ultimo dia que passo nesta terra. Sinto-me ainda mais feliz quando penso que muito em breve estarei em Lisboa e poderei disfrutar do silêncio do meu quarto, rodeada pelos meus livros. 16 Agosto
Estamos agora a 34 km de Lisboa. 17 Agosto
Gosto muito de “C”, amo “B”, faço amor com “A” e quase que posso dizer que me sinto pronta para mais uma relação. 20 Agosto
Comprei a Bíblia. “A” diz que é partir dali que se começa a perceber toda a literatura. Se assim é… 26 Agosto
Saiu uma nova revista literária – “Tabacaria”, editada pela casa Fernando Pessoa. Custa 2000$00. Caríssima. 28 Agosto
Este diário é a única coisa que tenho mantido com regularidade. 15 Setembro
A vida das pessoas que não gostam de ler, ou escrever ou que não tenham qualquer “hobby” deve ser insuportável. 22 Setembro
À hora de almoço o metro estava cheio. Ela roçou o corpo em mim, empurrada pelas pessoas que tentavam entrar e sair. Durante momentos ficámos constrangedoramente próximas. Desejei que o metro esvaziasse. Não suportava o seu toque. 30 Setembro
“Cinco noites, cinco filmes” na RTP2 acompanha-me diariamente. 5 Outubro
Leio o “Incesto” de Anaïs. Descubro-me em cada página. Como é que é possível? 29 Outubro
Já é Novembro. Porque é que já é Novembro? 1 Novembro
Salto de “gostar em gostar”. 3 Novembro
Ela aproxima-se. “Fazes parte da luta anti-homossexual?” Fico estática. Ela fala depressa, diz que não percebe os meus olhares, que namora com a outra, “que mal é que isso tem?” e vai-se embora sem me deixar sequer responder. 19 Novembro
“Object and Subject of Desire” – uma peça de teatro magnífica. Estava junto ao palco. A actriz, com um vestido de noiva transparente que deixava ver toda a sua nudez, aproxima-se. Olha-me nos olhos. Diz: “I want to fuck you.” Repete: “I want to fuck you.”. Vezes sem conta. 10 Dezembro
Estou mais interessada nela como objecto para a minha escrita do que como mulher. 14 Dezembro
Descubro Sylvia Plath. Torna-se uma paixão. 20 Dezembro
Todo este sentimentalismo estraga o diário. 30 Dezembro
“Are you my Butterfly?” O filme de Cronenberg é uma maravilha. 30 Dezembro
Oiço Chopin ininterruptamente. 31 Dezembro

Adorei. O passeio e o sol que aos poucos já se desvanecia. este sol de “verão” seco e mole, é um misto de inconsistências, mas é pano de fundo, para quê olhar o cenário quando são as palavram quem invade os palcos, os corpos, as praças, cada rua.
E estas fagulhas que saltam do diário – adorei-as.
Um beijo, até breve.
V.
p.s. hoje choveu; pela primeira vez na semana o tempo fez-se medonho… mas o meu dia foi belo. Depois partilho contigo anotações que ficaram do “hoje”.