fragmentos do diário VI – breves de 1997

Gostava de ter forças para explorar a loucura que me rodeia. 11 Janeiro

Esta vontade de tocá-la. 12 Janeiro

As pessoas vulgares reduzem o amor. Acredito em Anaïs. 13 Janeiro

Que fazer se “B” voltar? 12 Janeiro

Ana Karenina e a poesia de Kavafy acompanham-me hoje. 26 Janeiro

Desejo o lado feminino dele. 28 de Janeiro

Deixar tudo. Para mais tarde regressar a Lisboa, os olhos embaciados pela beleza desta cidade. 29 Janeiro

Sonata de Outono é maravilhoso. 2 Fevereiro

Os antidepressivos deixam-me a dormir o dia todo. 6 Fevereiro

Depois da tempestade jamais chegará a bonança. 23 Fevereiro

Por vezes, um imenso cheiro, sabor a sexo invade-me a boca. 4 Março

Quero escrever, escrever infinitamente. 19 Março

Esta noite, o corpo dele, o beijo dela. 23 Março

Nada deverá acontecer entre nós. Sinto-o claramente. 25 Março

Voltou a acontecer. 26 Março

Quando perdi “B” tive uma certeza. A dor que senti era a maior e naquela altura não chorei apenas a perda de um amor, mas todos os que viriam a seguir. Por isso, hoje, choro menos. 29 Março

Quando vejo a praça de Tirana nos telejornais não consigo conter as lágrimas. 30 Março

Creio estar terrivelmente apaixonada. Pelos dois? 31 Março

Que tudo se apague da minha memória. 7 Abril

Amo “C”. Pela primeira vez, “B” passa para segundo plano. 14 Abril

Não percebo porque é que associam o amor à felicidade suprema e a sentimentos angelicais – eu própria o fiz há dias atrás. Pura estupidez. 27 Abril

“Escrevo, porque não posso não escrever.”, diz Tsvietaieva. 2 Maio

Desgasta-me amar. 19 Maio

Quero muito que a mulher do cinema me telefone. 21 Maio

Quem lesse estas páginas julgar-me-ia amoral. 21 Maio

Se soubesse desenhar, desenhava o rosto de “C” neste diário. Para que memória não me atraiçoe. 23 Maio

Ir para outra terra, para um quarto de hotel – uma cama e uma mesa, mentir se me perguntarem o nome ou a idade. 1 Junho

Quando disse a “C” que tinha dormido com “D”, os olhos dela encheram-se de lágrimas. 2 Junho

Fui para a cama com “N”. Ela quis, a mim tanto me fazia. 11 Junho

Al Berto morreu. Nunca mais um inédito na “Ler” para que eu vá a correr comprá-la. Choro. Não consigo acreditar. 13 Junho

Deslumbro-me com as Memórias de Adriano, de Yourcenar. 22 Junho

Antes de ir embora, ele disse-me “Talvez eu me pudesse habituar a ti”. Disse-lhe que não. 24 Junho

Como evitar a ilusão do prazer que acaba sempre por surgir? 28 Junho

“Quando estou bêbado, fico apaixonado por ti.”, diz-me “A”. 6 de Julho

Passeavamos junto ao Tejo. “L” diz-me “Quero levar-te à Grécia”. Sorrio, “quem sabe”. Responde-me “Não agora, daqui a uns cinco anos”. Acreditará ela que eu estarei aqui dentro de cinco anos? Que terrível engano. 12 Julho

“M” parece-me um deus grego. Foi das mais belas noites. De tarde, estarei com “L”. 13 Julho

Disse-lhe que não me amasse. Chorou. 13 Julho

Lembro-me de quando vi “M” pela primeira vez, era eu quase criança. Lembro-me da atracção. E agora, com ele, descubro um prazer que não pensei possível. 14 Julho

“Não te aconteceu nada de especial nem de incompreensível: caiu-te em cima a fúria de uma deusa, mais nada. Estás apaixonada – olha só que grande coisa!” (in Hipólite de Eurípides) 25 Julho

Leio Romeu e Julieta. 25 Julho

Quero-te tanto tempo quanto o “para sempre” permitir. 26 Julho

Amanhã irei viajar com “M”. 7 Agosto

Passar vários dias com a mesma pessoa, vinte e quatro horas, sufoca o amor. Não fui feita para relações destas. 12 Agosto

Dancei toda a noite, embriaguei-me, fumei mais do que num ano inteiro. As mulheres eram bonitas – tinham a marca de Safo. Um mundo inteiro surge à minha frente. Avanço com a máxima confiança, como se há muito ali pertencesse. 16 Agosto

Vou recolhendo números de telefone. Esta noite quis dançar com todas as mulheres. 17 Agosto

O meu desejo é sempre mais sensual que sexual. 17 Agosto

Relações estáveis estão fora de questão. 22 Agosto

A escrita, os livros, os estudos dos clássicos acompanham-me continuamente. Fazem-me sentir… uma artista. 22 Agosto

Um homem e uma mulher fodem na minha cama. Não sinto qualquer prazer. Não me junto a eles. Nem sequer sei os seus nomes. Não é importante – agora percebo. 23 Agosto

No bar, com um copo de pisang ambom. (…) Tenho a sensação de estar em casa, sentada na cama, a imaginar tudo isto. Aliás, nada aqui existe. É pura ilusão. Pura literatura. De nada tenho a certeza. Como poderia? 24 Agosto

Será que a mulher de preto virá? E virá de preto? 24 Agosto

Anaïs, Anaïs… 29 Agosto

O que realmente me interessa, não é a posse física, mas todo o jogo de corpos porque só isso vale a pena passar para a escrita. Em todas estas noites, a artista que há em mim vem à tona e tudo me puxa para a literatura – é esse o princípio e o fim das coisas. 30 Agosto

Uma descarga nervosa levou-me para o hospital. 7 Setembro

Cinema, cinema, cinema. 12 Setembro

Perco a conta quanto penso quantas mulheres dançaram comigo. 15 Setembro

Quando me apaixono, zango-me comigo. 22 Setembro

Leio, escrevo, faço amor(es). 23 Setembro

Acabei os Maias. Fabuloso. 23 Setembro

Hoje estive com “C”. É-me indiferente. 25 Setembro

Quando penso que tenho um ano escolar inteiro pela frente, tenho vontade de me tapar com o edredon e não sair nunca da cama. 26 Setembro

Sinto a vida a escapar-se-me. 29 Setembro

Não aguentaria a fidelidade. 6 Outubro

“Imagina que ficamos juntas durante muito tempo.” Expliquei-lhe que não, que não sou assim. Disse-me “Eu sei”. 19 Outubro

A ânsia de ter esta, aquela e outra e mais outra ainda é tão grande que creio ter ficado distante do verdadeiro amor. 20 Outubro

Vivo de sábado em sábado. 29 Outubro

Que confusão vai dentro de mim! 12 de Novembro

Dizem-me “Queria ter a tua força”. Digo “Não é força. É instinto de sobrevivência” 29 Novembro

Qual a palavra certa para a dor que sinto? 4 Dezembro

Percebo como é perfeita a minha solidão. 26 Dezembro

2 thoughts on “fragmentos do diário VI – breves de 1997

  1. As mãos

    A ânsia de ter esta, aquela e outra e mais outra ainda é tão grande que creio ter ficado distante do verdadeiro amor. 20 Outubro

    Interessante descobrir o que escrevias num meu dia de anos qualquer, igualmente inutil navegar nas coincidências e esperar que o destino nos revele uma verdade absoluta qualquer escondida à frente dos nossos olhos. Faço anos todos os dias.

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