Arquivo: Abril 2007

fragmentos do diário VI – breves de 1997

Gostava de ter forças para explorar a loucura que me rodeia. 11 Janeiro

Esta vontade de tocá-la. 12 Janeiro

As pessoas vulgares reduzem o amor. Acredito em Anaïs. 13 Janeiro

Que fazer se “B” voltar? 12 Janeiro

Ana Karenina e a poesia de Kavafy acompanham-me hoje. 26 Janeiro

Desejo o lado feminino dele. 28 de Janeiro

Deixar tudo. Para mais tarde regressar a Lisboa, os olhos embaciados pela beleza desta cidade. 29 Janeiro

Sonata de Outono é maravilhoso. 2 Fevereiro

Os antidepressivos deixam-me a dormir o dia todo. 6 Fevereiro

Depois da tempestade jamais chegará a bonança. 23 Fevereiro

Por vezes, um imenso cheiro, sabor a sexo invade-me a boca. 4 Março

Quero escrever, escrever infinitamente. 19 Março

Esta noite, o corpo dele, o beijo dela. 23 Março

Nada deverá acontecer entre nós. Sinto-o claramente. 25 Março

Voltou a acontecer. 26 Março

Quando perdi “B” tive uma certeza. A dor que senti era a maior e naquela altura não chorei apenas a perda de um amor, mas todos os que viriam a seguir. Por isso, hoje, choro menos. 29 Março

Quando vejo a praça de Tirana nos telejornais não consigo conter as lágrimas. 30 Março

Creio estar terrivelmente apaixonada. Pelos dois? 31 Março

Que tudo se apague da minha memória. 7 Abril

Amo “C”. Pela primeira vez, “B” passa para segundo plano. 14 Abril

Não percebo porque é que associam o amor à felicidade suprema e a sentimentos angelicais – eu própria o fiz há dias atrás. Pura estupidez. 27 Abril

“Escrevo, porque não posso não escrever.”, diz Tsvietaieva. 2 Maio

Desgasta-me amar. 19 Maio

Quero muito que a mulher do cinema me telefone. 21 Maio

Quem lesse estas páginas julgar-me-ia amoral. 21 Maio

Se soubesse desenhar, desenhava o rosto de “C” neste diário. Para que memória não me atraiçoe. 23 Maio

Ir para outra terra, para um quarto de hotel – uma cama e uma mesa, mentir se me perguntarem o nome ou a idade. 1 Junho

Quando disse a “C” que tinha dormido com “D”, os olhos dela encheram-se de lágrimas. 2 Junho

Fui para a cama com “N”. Ela quis, a mim tanto me fazia. 11 Junho

Al Berto morreu. Nunca mais um inédito na “Ler” para que eu vá a correr comprá-la. Choro. Não consigo acreditar. 13 Junho

Deslumbro-me com as Memórias de Adriano, de Yourcenar. 22 Junho

Antes de ir embora, ele disse-me “Talvez eu me pudesse habituar a ti”. Disse-lhe que não. 24 Junho

Como evitar a ilusão do prazer que acaba sempre por surgir? 28 Junho

“Quando estou bêbado, fico apaixonado por ti.”, diz-me “A”. 6 de Julho

Passeavamos junto ao Tejo. “L” diz-me “Quero levar-te à Grécia”. Sorrio, “quem sabe”. Responde-me “Não agora, daqui a uns cinco anos”. Acreditará ela que eu estarei aqui dentro de cinco anos? Que terrível engano. 12 Julho

“M” parece-me um deus grego. Foi das mais belas noites. De tarde, estarei com “L”. 13 Julho

Disse-lhe que não me amasse. Chorou. 13 Julho

Lembro-me de quando vi “M” pela primeira vez, era eu quase criança. Lembro-me da atracção. E agora, com ele, descubro um prazer que não pensei possível. 14 Julho

“Não te aconteceu nada de especial nem de incompreensível: caiu-te em cima a fúria de uma deusa, mais nada. Estás apaixonada – olha só que grande coisa!” (in Hipólite de Eurípides) 25 Julho

Leio Romeu e Julieta. 25 Julho

Quero-te tanto tempo quanto o “para sempre” permitir. 26 Julho

Amanhã irei viajar com “M”. 7 Agosto

Passar vários dias com a mesma pessoa, vinte e quatro horas, sufoca o amor. Não fui feita para relações destas. 12 Agosto

Dancei toda a noite, embriaguei-me, fumei mais do que num ano inteiro. As mulheres eram bonitas – tinham a marca de Safo. Um mundo inteiro surge à minha frente. Avanço com a máxima confiança, como se há muito ali pertencesse. 16 Agosto

Vou recolhendo números de telefone. Esta noite quis dançar com todas as mulheres. 17 Agosto

O meu desejo é sempre mais sensual que sexual. 17 Agosto

Relações estáveis estão fora de questão. 22 Agosto

A escrita, os livros, os estudos dos clássicos acompanham-me continuamente. Fazem-me sentir… uma artista. 22 Agosto

Um homem e uma mulher fodem na minha cama. Não sinto qualquer prazer. Não me junto a eles. Nem sequer sei os seus nomes. Não é importante – agora percebo. 23 Agosto

No bar, com um copo de pisang ambom. (…) Tenho a sensação de estar em casa, sentada na cama, a imaginar tudo isto. Aliás, nada aqui existe. É pura ilusão. Pura literatura. De nada tenho a certeza. Como poderia? 24 Agosto

Será que a mulher de preto virá? E virá de preto? 24 Agosto

Anaïs, Anaïs… 29 Agosto

O que realmente me interessa, não é a posse física, mas todo o jogo de corpos porque só isso vale a pena passar para a escrita. Em todas estas noites, a artista que há em mim vem à tona e tudo me puxa para a literatura – é esse o princípio e o fim das coisas. 30 Agosto

Uma descarga nervosa levou-me para o hospital. 7 Setembro

Cinema, cinema, cinema. 12 Setembro

Perco a conta quanto penso quantas mulheres dançaram comigo. 15 Setembro

Quando me apaixono, zango-me comigo. 22 Setembro

Leio, escrevo, faço amor(es). 23 Setembro

Acabei os Maias. Fabuloso. 23 Setembro

Hoje estive com “C”. É-me indiferente. 25 Setembro

Quando penso que tenho um ano escolar inteiro pela frente, tenho vontade de me tapar com o edredon e não sair nunca da cama. 26 Setembro

Sinto a vida a escapar-se-me. 29 Setembro

Não aguentaria a fidelidade. 6 Outubro

“Imagina que ficamos juntas durante muito tempo.” Expliquei-lhe que não, que não sou assim. Disse-me “Eu sei”. 19 Outubro

A ânsia de ter esta, aquela e outra e mais outra ainda é tão grande que creio ter ficado distante do verdadeiro amor. 20 Outubro

Vivo de sábado em sábado. 29 Outubro

Que confusão vai dentro de mim! 12 de Novembro

Dizem-me “Queria ter a tua força”. Digo “Não é força. É instinto de sobrevivência” 29 Novembro

Qual a palavra certa para a dor que sinto? 4 Dezembro

Percebo como é perfeita a minha solidão. 26 Dezembro

fragmentos do diário V – breves de 1996

“C” diz-me: “Imagino os anjos com cabelos loiros e encaracolados. Quando penso em ti lembro-me um anjo”. Horas depois “A” diz-me: “Contigo descobri que os anjos podem ter cabelos encaracolados”. 10 Junho

É tão fácil amar e há tantas maneiras de o fazer, diz Anaïs. 17 Junho

A ler “Casas de Assombradas”, de Lynne Tillman. 19 Junho

Laurie Anderson o dia todo. 20 Junho

Tudo o que fiz foi ler. “Primeiro Amor” de Turguniev e “Ida” de Gertrude Stein. 21 Junho

E se de repente o mar entrasse pela minha porta? 21 Junho

Este diário vai começar a ficar escondido num sítio muito seguro, onde ninguém o possa encontrar. 22 Junho

Tive vontade de lhe dizer “amo-te”. Mas não. 29 Junho

A ler a página 92 do Monte dos Vendavais. Uma maravilha. 29 Junho

A vida de cada um toma um caminho próprio, e se sigo o caminho dela vivo também a vida dela. 16 Julho

Gosto dele como quem gosta de uma mulher. 16 Julho

Dois anos depois, uma carta de “B”. 20 Julho

A carta que “B” me escreveu é uma carta de amor. Tudo voltou. 22 Julho

Não tenho lido nada. Como é que sou capaz de não ler? 23 Julho

Começo a levar um tipo de vida que nem todos aceitam. Ela diz-me que não tenho moral. 31 Julho

Leio e delicio-me com o Diário de Katherine Mansfield. Não pude resistir, tive de deixar a Anaïs por uns dias. 6 Agosto

Buscar a solidão e amar as mais simples coisas da vida. Talvez seja unicamente isto, além dos livros, que vale realmente a pena. 15 Agosto

Apesar de ter acordado com dores de barriga terríveis e de continuar ainda ligeiramente mal disposta sinto-me imensamente feliz por saber que este é o ultimo dia que passo nesta terra. Sinto-me ainda mais feliz quando penso que muito em breve estarei em Lisboa e poderei disfrutar do silêncio do meu quarto, rodeada pelos meus livros. 16 Agosto

Estamos agora a 34 km de Lisboa. 17 Agosto

Gosto muito de “C”, amo “B”, faço amor com “A” e quase que posso dizer que me sinto pronta para mais uma relação. 20 Agosto

Comprei a Bíblia. “A” diz que é partir dali que se começa a perceber toda a literatura. Se assim é… 26 Agosto

Saiu uma nova revista literária – “Tabacaria”, editada pela casa Fernando Pessoa. Custa 2000$00. Caríssima. 28 Agosto

Este diário é a única coisa que tenho mantido com regularidade. 15 Setembro

A vida das pessoas que não gostam de ler, ou escrever ou que não tenham qualquer “hobby” deve ser insuportável. 22 Setembro

À hora de almoço o metro estava cheio. Ela roçou o corpo em mim, empurrada pelas pessoas que tentavam entrar e sair. Durante momentos ficámos constrangedoramente próximas. Desejei que o metro esvaziasse. Não suportava o seu toque. 30 Setembro

“Cinco noites, cinco filmes” na RTP2 acompanha-me diariamente. 5 Outubro

Leio o “Incesto” de Anaïs. Descubro-me em cada página. Como é que é possível? 29 Outubro

Já é Novembro. Porque é que já é Novembro? 1 Novembro

Salto de “gostar em gostar”. 3 Novembro

Ela aproxima-se. “Fazes parte da luta anti-homossexual?” Fico estática. Ela fala depressa, diz que não percebe os meus olhares, que namora com a outra, “que mal é que isso tem?” e vai-se embora sem me deixar sequer responder. 19 Novembro

“Object and Subject of Desire” – uma peça de teatro magnífica. Estava junto ao palco. A actriz, com um vestido de noiva transparente que deixava ver toda a sua nudez, aproxima-se. Olha-me nos olhos. Diz: “I want to fuck you.” Repete: “I want to fuck you.”. Vezes sem conta. 10 Dezembro

Estou mais interessada nela como objecto para a minha escrita do que como mulher. 14 Dezembro

Descubro Sylvia Plath. Torna-se uma paixão. 20 Dezembro

Todo este sentimentalismo estraga o diário. 30 Dezembro

“Are you my Butterfly?” O filme de Cronenberg é uma maravilha. 30 Dezembro

Oiço Chopin ininterruptamente. 31 Dezembro

fragmentos do diário IV

Anaïs, Anaïs.
Deslumbro-me com a vida de Anaïs que, aos vinte anos, ainda julgava poder engravidar com um beijo.
Depois de casar com Hugh, não mantiveram relações sexuais durante mais de um ano. Assim, apesar de a “mulher-anjo-diabo” namorar com todos os rapazes que lhe faziam a corte, e enumerá-los – rapaz n.º 1, rapaz n.º2, manteve-se virgem até tardíssimo – escondendo isso do próprio diário.

29 Agosto 1997

fragmentos do diário III

Há dias, à saída do cinema, uma troca de olhares. Ela aproximou-se.

- Conheces-me?
- Não. – disse eu, a medo
- Então estavamos a brincar?
Sorri.
- Se estavamos a brincar foi muito bom – e riu-se. Estremeci.
Dei-lhe o meu número de telefone. Não telefonou.

No sábado fui ao cinema. Encontrei-a.

- Não me telefonaste. – disse
- Não.
- Porquê?
Ela sorri.
- Quando me lembrava já era tarde.
Olhava para os olhos verdes dela. Pensava em “B”. Esta mulher é mais bonita.
- Amanhã? – perguntei-lhe.
- Amanhã não, um dia.

19 Maio 1997

fragmentos do diário II

Continuo a ler “Ana Karenina”. Estou quase a meio.
Ana está grávida de Vronski. E agora?

Paralelamente, leio “Viagens na minha terra”. É um livro delicioso. Passei agora para o capítulo XXI. Sinto-me extremamente feliz por isso. No início, pensei que jamais conseguiria ler este livro.

11 Fevereiro 1997

fragmentos do diário I

Um gato preto em cima de um telhado de telhas vermelhas – daqueles à moda antiga. Imagem de extrema beleza que jamais conseguirei transportar para a minha escrita. Aquilo que escrevo desconhece esta simplicidade.
Descrever os movimentos de um gato, que observo da janela do meu quarto não é para mim.
Escrevo sobre pais que fodem com filhas. Que fazer?

26 Janeiro 1997

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Be daring, be different, be impractical, be anything that will assert
integrity of purpose and imaginative vision against the
play-it-safers, the creatures of the commonplace, the slaves of the
ordinary.

Cecil Beaton