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You can wet the rim of a glass and run your finger around the rim and it will make a sound. This is what I feel like: this sound of glass. I feel like the word shatter.

Margaret Atwood | The Handmaid’s Tale

1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

Eugénio de Andrade

I kissed his shadow. I kissed his shadow and this kiss did not touch him, this kiss was lost in the air and melted with the shadow.

Our love of each other is like one long shadow kissing, without hope of reality.

Anaïs Nin | House of Incest

Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Não porque não te amasse, ou porque não me quisesses tu. Simplesmente tinha de acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu gosto-te, tu gostas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.

Manuel Jorge Marmelo | O Amor é para os parvos

fragmentos do diário XXVI – breves de 2017

“o novo ano começa com o presságio de um amor”. esta era a frase a escrever, há dias atrás. não a escrevi porque a certeza da dor é tão absoluta e aterroriza-me de tal forma que mais vale não deixar mais um registo de uma desilusão escrito. 6 Janeiro

Sinto-me pequena e frágil perante as suas demonstrações de ternura. 9 Janeiro

O que me espera nas próximas horas? Que início de amor? Que amor?
A felicidade que sinto só é equiparada ao medo que sinto.
Preciso de quebrar o ciclo. Preciso de um amor passível de ser vivido. 11 Janeiro

Ocupo o lugar 14D do avião e reparo que não existe lugar 13. Portanto, à prova de azares. 11 Janeiro

Um mergulho em maré alta, chegar ao fundo, abrir os olhos e as águas serem transparentes, como os dias mais claros. 12 Janeiro

Pesadelos todas as noites. Acordo com imagens terríveis que me acompanham nos dias que se seguem. 23 Janeiro

O peso dos anos sobre o corpo. Tudo me dói e me esmaga e desejo voltar a dormir num profundo sono despovoado de imagens. 3 Fevereiro

Sonho com os olhos verdes dela – uma tempestade. 17 Fevereiro

E hoje é domingo. Destes domingos que chegam aos ossos. 19 Março

Passaram quase 30 anos. Somos adultos agora. Muito mais adultos do que julgávamos ser possível quando brincávamos às escondidas pela casa dela.
E talvez só eu guarde estas memórias. Como uma dádiva ou maldição. Certamente estarão todos felizes por se encontrarem enquanto que eu trago todos estes fantasmas, permito que se sentem à mesa connosco. 24 Março

Silêncio. Sempre tanto silêncio. 25 Março

Pego no telemóvel para começar a escrever e percebo as saudades que tenho de um papel e uma caneta. 2 Maio

Farias anos hoje. Dir-me-ias, “estou acabado”. Eu chamar-te-ia de parvo, dir-te-ia que ainda bem que cá estás, que estás perto de mim, que irias morrer muito tarde, de velhice. Tu inclinarias a cabeça, olhando para mim e sorrindo, sabendo que eu te percebo mas feliz pela minha crença quase infantil na tua imortalidade. 2 Maio

Caminhar pela cidade, respirar a cidade. É ainda isto que me devolve.
Depois de uma hora nestas ruas, a arritmia acalmou. 22 Maio

Tem acontecido isto, relações em que as pessoas não se dão mas dizem amar-me como nunca amaram. De que serve o amor pelo amor? Diria mesmo, o amor desprovido de amor. 1 Junho

Que bem me serviria uma vida sem trabalho!
 Poder passar as tardes num café a ler, a escrever. 2 Junho

Não me tinha apercebido quão triste estava até reparar que o sol há muito já se tinha posto e que estava sentada na sala às escuras. 19 Junho

Ela diz-me que comprou a passagem. que chega dia 18. E eu sinto que me deram um nó por dentro, que deixei de conseguir respirar fundo. É como aquelas velas de aniversário que depois de soprarmos se voltam a acender. Como um vírus que surge cada vez que o sistema imunitário está comprometido e nos ataca por dentro. 25 Junho

Tão farta de pessoas. Afastam-se quando me aproximo, aproximam-se quando me afasto. Alguém sabe o que quer? 28 Junho

Ceder ao que sinto por ela. Seria um vendaval. 1 Julho

Aniversário. Há mais mortos que vivos ao redor desta mesa. Que dia horrível, horrível, horrível. Porque raio se festeja um dia destes? 3 Julho

Leio a poesia de Bukowski – Love is a Dog from Hell – e é esta poesia que melhor me serve. Não há palavras caras, romantismos desnecessários, há sexo e solidão, e solidão depois sexo e uma espera de que ninguém fala. 6 Julho

É estranho como nada me completa e ao mesmo tempo a companhia faz-me sentir ainda mais incompleta. 9 Julho

Momento há em que não quero apaixonar-me por ninguém, não quero sair desta zona de conforto que a solidão se tornou. 9 Julho

Vou buscar os diários de al berto. Abro sempre numa página ao calhas e de todas as vezes tenho de suster a respiração. Forma-se um nó na garganta que dói. 11 Julho

Domingos intermináveis. A solidão é cada vez maior. Ninguém aparece e o telefone não toca.
Em três meses fará um ano que não vejo a mãe. A voz dela começa a desaparecer, como sempre desaparecem as vozes dos mortos.
Continuar viva é isto, suportar a dor, estar no absoluto limite da tristeza. 16 Julho

Com ela relembro-me como pode ser perfeita uma relação. Passeamos e conversamos e rimos e eu sinto-me mais inteira. 20 Julho

Que me deem tudo, ou que fiquem longe de mim. 21 Julho

Quando me sento nas esplanadas da avenida e o fado se começa a ouvir, tudo volta a estar bem. Sou de lisboa.
Se ao menos conseguisse passar para a escrita esta luz, como o vento faz estremecer as árvores e provoca as sombras interrompidas pelo sol. 29 Julho

Um desejo que me deixa doente – de algo tão simples como tocá-la na mão. 2 Agosto

Ela empurra-me para a escrita, para os livros, para o cinema. Coloca-me no centro de mim, faz-me sentir coisas como se fosse a primeira vez. e eu caio, sem rede, pelo olhar dela adentro. 2 Agosto

Mas há sempre o dia seguinte. 3 Agosto

E agosto hoje voltou a ser agosto. este mês lentíssimo, em que as ruas cheiram a morte e nenhuma voz virá salvar-me.
Se ao menos Lisboa esvaziasse de repente e eu pudesse nela caminhar. Sem nenhuma voz, sem nenhum rosto.
Que me seja devolvida esta cidade. 10 Agosto

A única forma de atingir a felicidade é o amor. Tudo o resto que queiramos inventar para lá chegar são actos desesperados de dar sentido à vida. 13 Agosto

Espero o metro na estação da avenida. Olho para as pessoas em volta e penso que um dia deixarei de cá estar, todas estas pessoas deixarão de cá estar. Estes carris sobreviver-nos-ão. 14 Agosto

Sozinha na praia. Faz-me bem este tempo de solidão, já que a solidão é tão profunda ao menos que as vozes se calem também. 18 Agosto

Costumava adorar regressar a Lisboa depois das férias, a beleza desta cidade era ainda mais evidente depois de uma ausência. Agora, olho para a avenida, para as sombras das árvores das quais ainda há uns dias falava e é como se a beleza não entrasse em mim. Estou fechada do lado de fora da beleza. 24 Agosto

Fico a imaginar que ela vai regressar de viagem e tudo voltará a ser como era. Mas ela regressará à cidade, não a mim. 25 Agosto

Acordavas hoje pela última vez. Haverá algum presságio do fim? Terás tu sentido que era a última manhã? Tudo tão breve, a vida passa a correr. De repente temos quarenta anos, de repente deixamos de cá estar. Que sentido faz tudo isto? Que sentido faz procurar um sentido? 28 Agosto

Ela é o início e o fim do meu desejo. 31 Agosto

Não salvei ninguém. Toda a vida a tentar. Nada, ninguém. Não salvei ninguém.
O vazio que resta é dantesco. Como se o corpo estivesse esburacado por tiros. 7 Setembro

Há muito tempo que tenho noção disto em mim, deste pavor à ternura, deste medo do amor desprovido de violência, do amor simples, sem fugas. E entristece-me e pergunto-me se voltarei a amar tranquilamente. 21 Setembro

Talvez o tempo do desejo tenha acabado. Talvez o corpo se tenha gasto por excesso de uso. 27 Setembro

sábados que expõem a solidão
sábados em que o sol fica fechado fora de casa
sábados que são domingos
estes dias intermináveis. 7 Outubro

Há uma sensação de orfandade neste vazio. Perdi o que me ligava à terra, as raízes desapareceram. 16 Outubro

Trabalho até de madrugada, trabalho aos fins-de-semana, aos feriados. Não deixo que a solidão me apanhe. Escrevo pouco para não criar espaços onde o pensamento me leve para lugares escuros. Porque, a bem ver, tirando o trabalho toda a vida é um espaço escuro. 12 Novembro

Esta solidão leva-me à loucura. 23 Novembro

Seria melhor nada escrever durante este interminável dezembro. 19 Dezembro

Medo de escrever sobre a noite com ela. Medo que tudo desapareça no momento em que escrever. 23 Dezembro

E assim chega a noite de natal, este natal feito de ausências.
Temo que se começasse a chorar não houvesse como parar. 24 Dezembro