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e falar-te-ia dos dias sem ti, de como é morte é infinitamente mais insuportável do que aquilo que dizem. e de como agosto voltou sempre, ano após ano.

viverás ainda em lisboa? poderá esta cidade guardar-te? poderá guardar todos os que nela, um dia, existiram?

O tempo. A mãe que era uma mulher jovem, o riso das crianças, a mesa cheia no dia de aniversário. O tempo arrasta-nos como as ondas levam o que está à beira mar. Nada que é levado volta a aparecer.

E como deixar de estar sentado na areia, a olhar o mar, à espera que ele nos devolva aquilo que tirou?

devia pertencer àqueles que amam calmamente, para quem a loucura no amor é um jogo para o qual não têm paciência. mas estes amores – estes pelos quais poderíamos morrer – são um inferno de sensações que me devolvem à vida. são estes amores que me empurram para a escrita.

fragmentos de 2011

se hoje voltasses, não reconhecerias
esta cidade.

a loja de discos desapareceu e o
alfarrabista é um café para turistas.

nunca mais a rua augusta deserta
numa noite de agosto.

as esplanadas apinhadas e o café
ao dobro do preço. o teu são domingos, nem imagino.

tuk-tuks seria uma palavra a aprender
e todos os dias passariam à tua porta.

se hoje voltasses, teríamos de subir ao telhado
lá de casa, tão alto que ninguém existe.

dir-me-ias,
é o azul do tejo que permanece.