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O tempo. A mãe que era uma mulher jovem, o riso das crianças, a mesa cheia no dia de aniversário. O tempo arrasta-nos como as ondas levam o que está à beira mar. Nada que é levado volta a aparecer.

E como deixar de estar sentado na areia, a olhar o mar, à espera que ele nos devolva aquilo que tirou?

devia pertencer àqueles que amam calmamente, para quem a loucura no amor é um jogo para o qual não têm paciência. mas estes amores – estes pelos quais poderíamos morrer – são um inferno de sensações que me devolvem à vida. são estes amores que me empurram para a escrita.

fragmentos de 2011

se hoje voltasses, não reconhecerias
esta cidade.

a loja de discos desapareceu e o
alfarrabista é um café para turistas.

nunca mais a rua augusta deserta
numa noite de agosto.

as esplanadas apinhadas e o café
ao dobro do preço. o teu são domingos, nem imagino.

tuk-tuks seria uma palavra a aprender
e todos os dias passariam à tua porta.

se hoje voltasses, teríamos de subir ao telhado
lá de casa, tão alto que ninguém existe.

dir-me-ias,
é o azul do tejo que permanece.

é perversa a ausência da escrita.
quando tudo em mim está calmo, não escrevo. mas não escrever é como respirar mal.
se não escrevo, sinto que vivo à superfície das coisas. quando a dor é intensa, escrevo ininterruptamente, estou no centro de mim.
daqui se depreende que preciso da dor para me sentir inteira.
haverá alguma vez equilíbrio em mim?

é como se o verão tivesse acabado de repente. o meu corpo acompanha o movimento das estações e as sombras da cidade instalam-se em mim.

de repente fiquei muito triste, tão vazia como estavam as ruas esta tarde. sobre o tejo caía um nevoeiro tão denso que dir-se-ia que o rio não existia.