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O tempo. A mãe que era uma mulher jovem, o riso das crianças, a mesa cheia no dia de aniversário. O tempo arrasta-nos como as ondas levam o que está à beira mar. Nada que é levado volta a aparecer.

E como deixar de estar sentado na areia, a olhar o mar, à espera que ele nos devolva aquilo que tirou?

devia pertencer àqueles que amam calmamente, para quem a loucura no amor é um jogo para o qual não têm paciência. mas estes amores – estes pelos quais poderíamos morrer – são um inferno de sensações que me devolvem à vida. são estes amores que me empurram para a escrita.

fragmentos de 2011

se hoje voltasses, não reconhecerias
esta cidade.

a loja de discos desapareceu e o
alfarrabista é um café para turistas.

nunca mais a rua augusta deserta
numa noite de agosto.

as esplanadas apinhadas e o café
ao dobro do preço. o teu são domingos, nem imagino.

tuk-tuks seria uma palavra a aprender
e todos os dias passariam à tua porta.

se hoje voltasses, teríamos de subir ao telhado
lá de casa, tão alto que ninguém existe.

dir-me-ias,
é o azul do tejo que permanece.

é perversa a ausência da escrita.
quando tudo em mim está calmo, não escrevo. mas não escrever é como respirar mal.
se não escrevo, sinto que vivo à superfície das coisas. quando a dor é intensa, escrevo ininterruptamente, estou no centro de mim.
daqui se depreende que preciso da dor para me sentir inteira.
haverá alguma vez equilíbrio em mim?

é como se o verão tivesse acabado de repente. o meu corpo acompanha o movimento das estações e as sombras da cidade instalam-se em mim.

de repente fiquei muito triste, tão vazia como estavam as ruas esta tarde. sobre o tejo caía um nevoeiro tão denso que dir-se-ia que o rio não existia.

aos nove anos já conhecia a morte. não havia céu nem lugar melhor. com a morte ia-se para debaixo da terra, ficava-se sozinho para sempre e chovia-nos em cima enquanto o corpo apodrecia. sabia que ninguém voltava da morte. que tinha de guardar na memória tudo o que conseguisse porque o tempo apaga os rostos e as vozes. sabia do inferno da solidão, que a loucura ameaça o olhar, as intermináveis horas de espera por quem jamais regressaria.a idade para ser criança acabou cedo. os campos de trigo onde outrora brincava às escondidas eram agora um refúgio para a dor. e os campos de trigo já não existiam senão na minha cabeça.

sabia que janeiro vinha inevitavelmente depois de dezembro, que as marés enchem sempre depois de vazar.

aos dez anos vi tanques e homens armados a invadir a minha cidade. soube que se fugirmos de um lugar levamos o lugar dentro de nós e que o silêncio das armas pode ainda provocar explosões por dentro do corpo. chegaram as noites carregadas de pesadelos, dormir em estado de alerta ou não dormir de todo. o baloiço enferrujou-se soltando-se da árvore quando as crianças desapareceram e já não havia sementes de girassol para encher os bolsos das batas pretas.

há espaços de dor que não conseguimos atravessar porque é na verdade a dor que nos carrega para a frente. mais do que qualquer outra coisa, é a dor que nos molda a identidade. o que nos aproxima mais de nós próprios senão o sofrimento?

todos os desastres que acontecem, acontecem para sempre.