Arquivo: 2011
mas a dor______ a dor atravessa cada pensamento.
muito antes dos teus olhos já eu te amava. muito antes dos meus olhos já me tinhas abandonado.
a memória constrói-se no interior desses dias.
qe koha dot nuk po e sheron
“oh give me the words that tell me everything”
a tua existência fere-me. tudo te traz de volta. esta casa. olhar em volta e ver-te em todo o lado. sentada à minha frente, a sorrir-me, levantares-te para me vir abraçar. tu a vestires-te, tu nua, em frente ao espelho, deitada, sentada no lavatório enquanto me vês a tomar banho, beijos no corredor, a fazer o jantar comigo, a fazer chá e torradas, “amor não te queimes!”, na sala a beber um café, o riso enquanto me contavas o teu dia, por cima de mim no sofá ou eu no teu colo, todas as despedidas à porta, todos os regressos.
onde te perdeste? o teu olhar que antes me contava histórias inteiras está agora vazio.
ainda te amo. as horas passam, os meses passam e ainda te amo.
amo as noites intermináveis ao redor do teu corpo. amo o teu riso, amo o teu olhar a salvo da loucura, amo os teus cabelos longos sobre o meu rosto, amo o futuro que quisemos construir.
amo tudo o que em ti já não existe.
alastra-se a mentira como resina. fica nas mãos, no peito, nos olhos, bloqueia a respiração.
You’ve got to understand
she’s not really breathing no not at all
those years of endless rain
they just washed her away.
e o que tu foste, o que de ti morreu quando voltará?
a ternura lenta dos nossos dedos nos nossos corpos, a tua mão sobre o meu cabelo, a minha mão no teu rosto.
durmo do lado esquerdo da cama como se pudesses ainda chegar e ocupar o teu lugar.
não voltarás. nunca mais. nunca mais.
inventaste-me no interior da tua mente. fiquei à margem da tua realidade.
foi quase perfeito. faltaste tu para que o fosse.
