começar o dia assim: desenhando passos circulares na lama da azinhaga.
cães, cheiro a estrume, a solidão paga-se logo de manhã cedo, como uma chuva que nos fustiga…
estou desatento ao que se passa comigo. não consigo avançar uma linha, dormito mais do que escrevo. tenho a alma triste.

ao certo, que quererá isto dizer?

Al Berto |  O Medo

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fotografia de Helena Almeida

Oculto-me. Vivo uma segunda pele. Já não é possível chegar a mim pela superfície.

A afectividade causa-me pavor.

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

al berto

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Fala-me, diz que soube logo, desde a travessia do rio, que eu seria assim com o primeiro amante, que amaria o amor, diz que sabe já que o hei-de enganar e também que hei-de enganar todos os homens com quem virei a estar.

Marguerite Duras | O Amante

Queria falar do mar – gostava de ter dito algo como isto: – Foi o mar que me fez começar a pensar no amor, mais do que noutra coisa; quero dizer, num amor por que valha a pena morrer, num amor que consuma uma pessoa.

Mishima | O marinheiro que perdeu as graças do mar