fragmentos do diário I

Um gato preto em cima de um telhado de telhas vermelhas – daqueles à moda antiga. Imagem de extrema beleza que jamais conseguirei transportar para a minha escrita. Aquilo que escrevo desconhece esta simplicidade.
Descrever os movimentos de um gato, que observo da janela do meu quarto não é para mim.
Escrevo sobre pais que fodem com filhas. Que fazer?

26 Janeiro 1997

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Be daring, be different, be impractical, be anything that will assert
integrity of purpose and imaginative vision against the
play-it-safers, the creatures of the commonplace, the slaves of the
ordinary.

Cecil Beaton

As Meninas da Rua 17

Chegavam silenciosas, noite alta,
comboiando o estrangeiro
faminto de alma.
Depois, no quarto ao lado,
com homens variados,
faziam explodir os seus gemidos
que ouvíamos sorrindo, sussurando belezas.
Era sua a verdade?
Era tanto o prazer?
Gemiam por gemer
Ou por delicadeza?

De manhã tomavam banho,
um pão com leite e mais nada.
O piso húmido ficava
com vestígios
e pegadas.

Nunca lhes vi bem a cara.
Mas que importância tem isso?

Só tinham a ver comigo
na medida em que era tanto
seu ser simplesmente humano.

E que tinha um par de ténis.
E que elas tinham
vinte anos.

Renata Pallottini | Um Calafrio Diário

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Um amigo mostrou-me este poema há dias. Não deixa de ser estranho olhar para este título :)

Nevoeiro sobre Lisboa

percorro à chegada a cidade encoberta
à procura de um livro de poemas
indicado por um amigo

tudo se encontra e nada me contenta
lisboa não cabe no velho alfarrabista

e vagamente penso em ti enquanto olho o cais

o tejo, hoje, cai do céu

shqipëria ime

Parashqevi Simaku, Albânia, há mais de 20 anos. Enquanto eu assistia no meio do público.

mesmo que explicasse, não estou certa que alguém percebesse o que sinto ao ver isto.

“Dhe cdo ëndërrim
Dua ta shikoj në jet
Dua emri im
Një kuptim të më ket”

amor

Dois mil cigarros.
E uma centena de milhas
de parede a parede.
Uma eternidade e meia de vigílias
mais brancas que a neve.

Toneladas de palavras
velhas como pegadas
de um ornitorrinco na areia.

Uma centena de livros que ficaram por escrever.
Uma centena de pirâmides que ficaram por construir.

Lixo.
Pó.

Amargo
como o princípio do mundo.

Acredita em mim quando digo
que foi belo.

Miroslav Holub

diz-me tu

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Liv Ullman em Lágrimas e Suspiros de Bergman

diz que não sabe do medo da morte do amor
diz que tem medo da morte do amor
diz que o amor é morte é medo
diz que a morte é medo é amor
diz que não sabe

Alejandra Pizarnik