habitas agora a memória
a memória de todas as coisas
esquecidas, de todas as coisas
não recordadas, das coisas
perdidas pelos cantos,
abandonadas, nómadas,
amargas, putrescíveis.

e não mais nos entregamos
não mais nascemos um no outro
não mais lembramos a pele
na pele incomensurável
o suor que nos cobria
e descobria os corpos
aflitos, quando todas as coisas
ainda eram esse mar azul e verde
que nos subia à boca, a salsugem
das coisas, de todas as coisas
agora desabitadas à beira-mar.

alexandre monteiro

One thought on “

  1. Alguem

    Permita que eu feche os meus olhos,
    pois é muito longe e tão tarde!
    Pensei que era apenas demora,
    e cantando pus-me a esperar-te.

    Permite que agora emudeça:
    que me conforme em ser sozinha.
    Há uma doce luz no silencio,
    e a dor é de origem divina.

    Permite que eu volte o meu rosto
    para um céu maior que este mundo,
    e aprenda a ser dócil no sonho
    como as estrelas no seu rumo.

    Cecilia Meireles

    (desculpa) *

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