verso de autografia | mário cesariny

miguel gonçalves mendes o mário tem medo da morte?

mário cesariny sou capaz de ter, um bocadinho. não sei o que é. (ri) mas gostava de ter daquelas mortes boas… a gente deita-se para dormir e nunca mais acorda, isso é que é bom.
mas tenho medo sobretudo da degradação física, isso sim! porque eu já sofro um bocadinho, vá lá, isso é que é muito chato, isso já é a morte a trabalhar, a trabalhar.
a morte propriamente não existe. se morreu, morreu… é o momento! tens medo da morte tu?

há o perigo de um grito lindíssimo

poema

Reconheço este quarto impermeável
reconheço-te estás adormecido
o peito muito aberto as mãos luminosas
o grande talento dos teus dentes miúdos

Há o perigo de um grito lindíssimo
quando andas assim comigo no invisível

Quando a manhã vier sairás comigo
para o espaço que nos falta para o amor
que nos falta

A aurora
está fatigada

a aurora
como um rio nosso
em torno dos elevadores

Tinha eu a idade
de um marselhês
silencioso
e tímido

Tu davas-me a lousa dos magos
o teu riso as letras
mais obscuras do alfabeto

Foi há muito tempo
ou agora
na caverna dos leões expressivos

A caverna que dá para a caverna
a caverna os lagos diligentes

Belo tu és belo
como um grande espaço cirúrgico

Porque tu não tens nome existes

A minha boca
sabe à tua boca

A minha boca
perdeu a memória
não pode falar as palavras
entram no seu túnel
e não é preciso segui-las

Disse que és alto
alto
branco e despovoado

Mário Cesariny

Pourquoi pas toi ?

dsc_0846.jpg

“Pourquoi pas toi dans cette ville et dans cette nuit pareille aux autres au point de s’y méprendre?”

como uma traição, o tejo no final da avenida.

a noite entra-me pela casa, as esquinas
de lisboa moldadas nos meus dedos.

as mulheres neste quarto a meia luz.

este precipicío para lá dos teus olhos.

talento

estende-se ainda lisboa
no espaço tocável dos meus olhos.

posso esperar por ti junto ao alfarrabista
ou passear contigo ao entardecer.

posso deixar que este cenário se reconstrua
ou desenhar um novo mapa nas tuas mãos.

sei que o amor é um talento que não tenho.

fevereiro, 2004

lido mal com a saudade

dsc_0786_peq.jpg

espero por ti.

“porque as palavras não te substituem e estão cheias de pústulas no coração das sílabas.”

dsc_0821_peq.jpg

toda a vida fazemos as malas. para partir ou para ver partir.

nas últimas semanas, amigos atravessaram oceanos. outros preparam-se para o fazer.

mas foi sempre assim.

saudades de um amigo, de um amante, de uma cidade, um cheiro, uma mulher.

fui para tirana aos 6 anos. portugal aos 8. novamente tirana, depois lisboa.

a minha melhor amiga muda de país.

a minha nova melhor amiga muda de país.

o meu primeiro amor muda de país.

dsc_0808_peq.jpg

agora fico.

(e espero por mim)