bright as yellow

And you live your life with your arms stretched out.
Eye to eye when speaking.
Enter rooms with great joy shouts,
happy to be meeting.

And bright,
bright,
bright as yellow,
warm as yellow.

And I do not want to be a rose.
I do not wish to be pale pink,
but flower scarlet, flower gold.
And have no thorns to distance me,

but be bright,
bright,
bright as yellow,
warm as yellow.

Even if I’m shouting, even if I’m shouting here
inside.
Even if I’m shouting, do you see that I’m wanting,
that I want to be so
bright,
bright,
bright as yellow,
warm as yellow.

Innocence Mission

fragmentos do diário XIV – breves de 2005

Habituo-me à nova casa. À solidão.
Tudo está calmo. Espero por mim. 1 Janeiro

Tudo me parece uma traição a tudo. Falta-me o ar. 11 Março

Há um lado de jogo e de sedução do qual ainda não me libertei. Faz parte de mim – está apenas mais “educado”. 14 Março

Certos trabalhos são como um castigo que tenho de cumprir. A vida adulta presenteia-nos assim. 20 Março

Dizem-me que estou viciada no trabalho. Respondo que não. 7 Maio

Pensava eu andava a escrever no diário regularmente. Afinal, conto cinco folhas preenchidas desde Janeiro. 23 Agosto

Às vezes custa este dia-após-dia. 30 Agosto

Demorei meses para acabar com ela e agora demoro meses para aceitar que acabou. 14 Setembro

Amanhã é dia de eleições. É tudo uma mentira tão grande que resta-nos apostar em quem mente um pouco menos. 9 Outubro

Começo cinco coisas ao mesmo tempo e desisto de tudo dez minutos depois. Não me suporto. 22 Novembro

Penso sempre que amanhã irei passear ao Rossio, olhar para Lisboa, ver o que julgava não existir. Será sempre amanhã. 22 Novembro

Reencontrei “C”. Seis anos sem vê-la e ontem estava ali. Já não é tão bonita. Se calhar, já nem é bonita. Mas reconheço-a ainda. 21 Dezembro

Vivo devagar. Este ritmo não me serve bem, mas ajusto-me a ele. 22 Dezembro

fragmentos do diário XIII – breves de 2004

Afinal, foste tu quem disse as palavras. Eu esperei sempre por amanhã, por depois de amanhã. 8 Abril

Cada dia carrega em si centenas de outros dias que já não posso apagar. 9 Julho

É verdade que estou triste. E triste por perceber que se pode viver com esta tristeza. 10 Julho

A nova casa está quase pronta. As estantes de livros deste quarto vão dando origem a um monte de caixa colocadas a um canto. É estranho que uma vida caiba em caixas. 16 Outubro

É estranho ver este quarto sem livros. E no entanto, eles existem ainda. O desalinho dos livros está tão decorado que qualquer estante vazia é ainda uma estante cheia. 27 Outubro

Poucas vezes quis tanto ter fé. Não carregar em mim este “Estar só e sem desculpas”. A escrita toma o papel de Deus. Escrevo para manter a lucidez. Deverá ter sido já esta a razão quando, aos 11 anos comecei o primeiro diário. 18 Novembro

Chorei ao tirar as fotografias da parede. 3 de Dezembro

Há momentos em que tudo o que é humano me é estranho. E é nessa estranheza que me descubro e dou um significado à vida. 3 Dezembro

Este diário foi o mais longo de sempre. Estão aqui quatro anos e meio.
Que a vida me devolva a urgência da escrita. 4 Dezembro

fragmentos do diário XII – breves de 2003

Que a sede de poesia se transforme em água e eu possa inventar novas cidades. 7 Fevereiro

Estou no limite de mim. 8 Fevereiro

Este amor como uma cidade em que todas as luzes estão acesas. É necessário apagá-las e encontrar-me só na escuridão. 10 Fevereiro

Relembro Anaïs Nin. 11 Fevereiro

Escrever nunca foi uma escolha. As palavras surgiram, desde cedo, como a marca de um destino. Mais real que a sombra que se precipita do meu corpo num dia de sol. 10 Março

Não há, nem pode haver, qualquer escolha que me faça deixar a escrita. Não vale a pena passar pela vida sem poesia. 12 Março

O hábito pode ser um vício tão grande como o amor. 17 Março

Este não ser capaz. 19 Março

Certo é que se o caminho a seguir fosse simples, não o seguiria. 24 Março

É certo que os anos mais vividos não são os actuais. 21 Abril

Porque desejo tanto a imortalidade se pouco me preocupo quando a vida não é aquilo que quis? 3 Junho

Anaïs dentro de mim, fora de mim. Desencontrada. Este coma perpétudo. 3 Junho

E tudo o que sinto, senti-o já antes. Repetidamente, a minha escrita é eco de escritas passadas. 9 Julho

Tropeço em mim. 10 Julho

Não sei se sou ainda a adolescente que fui ou se procuro ser a adolescente que fui. 10 Julho

O meu corpo precipita-se para fora de mim e lembro-me de ter 16 anos. 12 Julho

Que precipício para lá dos teus olhos? 21 Julho

Falho-me. Falto-me. 22 Julho

E amanhã acordarei tarde – sair de casa, descer a avenida até ao Rossio, até ao Tejo, os meus olhos pousados sobre o cais.
Dir-te-ei as palavras? 27 Julho

Quatro meses de silêncio.
Dentro de mim existem mil palavras e poemas inteiros.
Se queres escrever, porque não queres escrever? 26 Dezembro

Não me permito escrever um poema “assim-assim”. Sempre odiei as “demi-teinte”, o razoável, as metades. 27 Dezembro

fragmentos do diário XI – breves de 2002

“B” regressou.
A frase tantas vezes desejada, sonhada, reinventada.
Um regresso com a data errada, deslocado do tempo e de um sentir.
Os anos passaram e as palavras que havia a dizer foram já esquecidas e o abraço mais demorado é agora um desconforto.
Nela surgiram os cabelos brancos, as rugas, os óculos de ver ao longe. Ao seu lado senti-me quase demasiado jovem. Como se me tivesse de desculpar por não ter envelhecido também.
Os barcos estão hoje ancorados ao cais, como estarão amanhã. Mas será o meu olhar sobre os barcos hoje igual ao de amanhã?
9 Junho

Escrever não é já uma vontade, mas uma necessidade.
Da vida não sei o que fiz, ou fez ela de mim. Não sei o que procurei e o que encontrei nunca foi suficiente.
Não escrevo, não leio, não saio, não bebo, não danço, não seduzo, não oiço, não falo, não penso, não sou Anais Nin.
24 de Outubro

Que os campos de Tirana se estendam diante dos meus olhos e neles possa caminhar durante horas. 24 de Outubro

“Eu amo-te” parece às vezes uma frase feita à qual me habituei, repetida até à exaustão. E não é também verdade que quando repetimos a mesma palavra até à exaustão ela torna-se vazia de sentido? 28 Novembro

Preciso de mais. De viver no limite, de arte. E se tudo fosse possível sem ter de abdicar de coisa alguma, ainda assim não sei se seria feliz. 28 Novembro

fragmentos do diário X – breves de 2001

Abro este diário e recomeço a chorar. 9 Março

Já não me ama. Sei lá há quanto tempo me terá deixado de amar. 11 Março

Procurei o diário durante mais de uma hora, para depois o encontrar devidamente arrumado no sítio que lhe compete.
Não há nada na minha vida que realmente valhe a pena. Por isso, choro muitas vezes ao acordar.
Sinto-me doente e sem forças.
Custa-me escrever porque é doloroso encarar a minha vida hoje. 12 Julho

Medo de ficar só. Que todos morram num acidente e me deixem aqui. 14 Julho

Quinze páginas de diário em um ano. 15 Julho

Acordo e caminho pela casa vazia, tomo banho, faço o almoço à hora de jantar, sento-me a trabalhar, volto a levantar-me e a caminhar pela casa. 1 Agosto

Hoje amo o amor com que te amei.
Uma tristeza enorme. O olhar de “R” preso na memória. Como se me dissesse que ainda sou dela. Mas não – já não sou. 2 Setembro